sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

E aí, Jesus!


E aí, Jesus!” – já me acostumei a olhar para trás com um sorriso amarelo. Aparentemente, os cabelos longos e castanhos, o cavanhaque, a pele branca, os olhos azuis e as feições ligeiramente européias fazem de mim uma espécie de sósia de um sujeito nascido na Judeia – terra que ficava mais ou menos onde se localiza hoje a faixa de Gaza. Mas eu não pretendo gastar linhas e mais linhas discorrendo sobre o quão absurda essa tese é sob o ponto de vista geográfico, genético e/ou antropológico – não. Para isso você pode contar com a programação especial de natal do Discovery/History Channel, ou até algum especial sobre a vida e obra do messias no National Geographic. E convenhamos – que o nosso querido JC não era nenhum branquelo azedo já é algo relativamente bem aceito há cerca de dez anos, e por boa parte da comunidade cristã [por mais incrível que isso possa parecer].

Não, pouco me interessa se o Filho do Homem tinha cabelo de bombril, nariz de batatinha e beição. E também não me ofendo ou me importo – ainda que já tenha abandonado há tempos minhas raízes católicas – em ser comparado com Sua Divindade; nem me irrito que isso aconteça todo santo ano. O que me incomoda de fato nessa historinha de “olha lá, é o Messias no McDonalds!” é que ela acontece sempre, invariavelmente e sem falha todo ano... exclusivamente em Dezembro.

Pausa para uma observação sobre este autor: Eu uso cavanhaque e cabelos longos há cerca e oito anos. Nesse período, nunca cortei as madeixas – e raramente faço a barba completamente. Os demais atributos físicos que hipoteticamente me fariam lembrar um hipotético filho de um hipotético Deus estão lá há... bem, desde que eu nasci. Logo, só posso concluir que, se eu me pareço de fato com o mártir cabeludo, o faço por nada menos que trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Certo? Certo. Mas os fiéis devotos de Nosso Senhor só notam em Dezembro, quando é o hipotético aniversário do hipotético cabeludo.

Mas qual é o meu ponto, meu hipotético Deus do céu? Simples: Amanhã é natal – seja lá o que  isso represente para você. Mas particularmente para uma maioria da população brasileira que se diz cristã, é simplesmente uma das datas comemorativas mais importantes do calendário religioso. É quando se comemora o aniversário daquele que veio à Terra para render os pecados da Humanidade – o que, na minha humilde opinião de hipotético sósia, parece ser algo um bocado trabalhoso e digno de admiração, supondo que tenha de fato acontecido assim. E se para você o natal celebra a memória desse cara que protagonizou tudo isso aí... bem, você deveria se lembrar dele mais vezes por ano. Pelo menos eu acho.

Assim, aproveito esse tempinho de vocês para desejar um feliz natal a todos os fiéis (e infiéis também) leitores do Paciência Negativa. E seja lá o que for que a data significa para você, seja lá qual for o motivo da comemoração, aproveite -- de preferência acompanhado de quem você ama. No entanto, o que quer que você comemore nessa época, não deixe para celebrar apenas em Dezembro -- leve para o ano todo. Solidariedade, benevolência, amor ao próximo, reunir a família, lembrar de “deus” e até uma boa bebedeira com os amigos são hábitos aconselháveis também nos demais dias do calendário. Fica a dica.


domingo, 19 de dezembro de 2010

Amigo secreto

Ah, chegou o final de ano – aquela época mágica, em que os corações são tocados pelo espírito natalino e todo mundo resolve fingir que é bonzinho. Para a surpresa de alguns, eu sou ávido apreciador das festas decembrinas. Mesmo aquela que comemora o nascimento daquele pobre senhor, que foi crucificado para absolver os pecados da Humanidade somente para que esta pudesse fazer o contadorzinho da estupidez girar incessantemente pelos mais de dois mil anos subseqüentes ao seu martírio [eu, no lugar dele, estaria puto da vida conosco]. No entanto, não contentes em transformar o aniversário do moço cabeludo em uma celebração centrada em um gordinho que veste vermelho, nossa sociedade demonstrou mais uma vez uma inigualável capacidade para estabelecer hábitos culturais de caráter duvidoso: Criamos algo tão cruel e injustificável quanto os rituais públicos de crucificação de criminosos, tão selvagem quanto a perseguição romana aos cristãos na aurora da história moderna. Criamos os amigos secretos.

 E você trabalha/estuda/tem amigos/respira, é quase certo que você tenha sido compelido – ao menos em algum momento da sua existência – a participar de um desses alegres eventos em prol da celebração da amizade. Em resumo, a coisa funciona mais ou menos assim: Algum cretino serelepe sugere a realização da festinha, normalmente na frente de algum chefe que apóia a idéia, e aparece com uma sacola de supermercado cheia de papeizinhos – cada um contendo o nome de um infeliz participante da brincadeira. Os nomeados são então compelidos a retirar, aleatoriamente, um dos papéis da caixa de Pandora sacola – o nome retirado é o seu querido amigo secreto, digno de um presente que você comprará com todo amor e carinho. Nesse ponto a regra não é clara – em algumas situações, alguém estipula um valor máximo para as compras, ou mesmo cria uma lista onde cada coitado define o que gostaria de ganhar. Tudo muito simples, divertido e socialmente adequado.

Ou não.

Pra começo de conversa, o sorteio acaba sendo tudo, menos aleatório. Isso porque nosso querido Papai do Céu, portador de um cinismo crônico e de um humor negro dignos de Sérgio Mallandro, adora interferir nesse tipo de evento – e você fatalmente retirará da sacolinha o nome da única pessoa do escritório que você não suporta/não conhece/quer-ver-morta-debaixo-de-um-caminhão-de-mudanças. E não contentes em te obrigar a presentear o mentecapto, os organizadores do jogo ainda exigem que você descreva aquela pessoa para que os demais participantes adivinhem quem é. Já viu o problema? “Meu amigo secreto é um babaca almofadinha pedante, que veste sempre a mesma camisa comprada na década de noventa e cheira a suor. Ah, ele também tem um mau hálito típico. Adivinharam?” à Não pega bem.

Mas tudo bem – vamos supor que você dê a sorte de retirar alguém que lhe seja completamente indiferente ou fácil de descrever [não, você NUNCA vai tirar alguém de quem gosta]. Ainda assim, você precisará comprar um mimo para o amigão. E nessa jornada, toda a sorte de intempéries pode se abater sobre você: Primeiro, lembre-se de que é Dezembro. Todos os shopping centers/lojas estarão transbordando de gente – alguns antecipando as compras natalinas, outros preocupados com seus próprios Amigos Secretos. Segundo, sempre tem um idiota que pede um CD/DVD/Livro fora de edição que você não encontra em LUGAR NENHUM DESSE MUNDÃO DE MEU DEUS. E... você adivinhou: É precisamente esse idiota que você sempre tira. Tudo aleatório.

Mas mesmo os Amigos Secretos tem seu o lado bom, né? Afinal, você tem a chance de receber um presentinho, e isso sempre é bacana. Só que não é. Porque na remota posibilidade de você não ter sorteado o imbecil de quem ninguém gosta como seu amigo secreto, tenha a certeza de que foi justamente ele quem te sorteou. E mesmo que exista uma lista de desejos, onde todo mundo deixa CLARO o que gostaria de ganhar, o sujeito vai dar um jeito de encontrar algo que seja “muito mais a sua cara” do que aquilo que você pediu. E aí, meu caro, você está perdido: Pouco importa se a criatividade do energúmeno foi utilizada de coração ou para tirar uma com a sua cara – o que quer que você receba será algo completamente inútil, medonho e terá sido comprado em uma loja que não aceita devoluções. E ao receber o elefante branco, você será compelido por palminhas de todos os presentes a desembrulhar o troço em público – e será forçado a fingir que amou a surpresa e está mais feliz do que no dia do nascimento do seu primogênito.

Criatura anti-social que sou, eu não participo mais de Amigos Secretos há tempos – e isso de alguma forma me é motivo de orgulho. Eu adoraria andar por aí com um botom no peito com os dizeres “Meu nome é Fabio Piva e eu não participo de Amigos Secretos há dez anos”, ou mesmo “Cada vez que alguém coloca meu nome numa sacolinha, um Panda morre de apendicite” – mas nunca encontrei um desses para comprar. Hum... tá aí: Na próxima vez em que alguém me voluntariar-contra-a-minha-vontade a participar de uma festinha dessas, já sei o que pedir. 


sábado, 11 de dezembro de 2010

Querido diário

[Muita gente me pergunta como eu consigo escrever para o Paciência Negativa e ainda trabalhar na minha tese de doutorado sem enlouquecer. Como ando ocupado com a pesquisa, resolvi postar uma entrada do meu diário de projeto – para demonstrar que, com um pouco de organização e força de vontade, é fácil preservar a sanidade mental e manter tudo andando. Que isso sirva de exemplo e encorajamento para os futuros mestres/doutores por aí.]

Querido diário,

Hoje será um dia atípico. A insônia das últimas noites não deu trégua – novamente dormi meros quarenta minutos de sono leve. Já os pesadelos – esses sim, não faltaram. Foi como das últimas vezes: Um elevador que subia, subia, subia e não parava nunca. Enquanto subia, ele diminuía de tamanho – e as paredes pareciam verter sangue ou algum tipo de fluído viscoso. Preto, no entanto – não era vermelho. Novamente, acordei assustado – o sentimento era o de que eu tinha protagonizado algo condenável e estava sendo consumido pela culpa. Provavelmente deve ser mera reação à pressão – o prazo para a entrega do artigo se aproxima e a falta de descanso tem me atrapalhadAll work and no play makes Fabio a dull boy All work and no play makes Fabio a dull boy All work and no play makes Fabio a dull boy All work and no play makes Fabio a dull boy All work and no play makes Fabio a dull boy All work and no play makes Fabio a dull boy All work and no play makes Fabio a dull boy All work and no play makes Fabio a dull boy.

De qualquer forma, meu psiquiatra diz que os sonhos são apenas isso – sonhos. A recorrência dos pesadelos com cadáveres dilacerados dos meus colegas e entes queridos também não são nada demais – apenas uma metáfWhat’s your favourite scary movie? e problemas cotidianos que eu preciso solucionar. Enquanto minha sensatez permanecer inabalada, não há motivo para alarde, reforça o doutor.

O trabalho flui bem – a prova do último Teorema de Fermat elucida claramente a questão sobre a distribuição de números primos entre I am not economically viable dois à trigésima oitava potência. Um problema a menos.

Aliás, isso me lembra que preciso visitar a sala do “chefe”. Meus últimos escritos provocaram uma reação peculiar no meu orientador: Ele insiste em se reunir comigo o mais rápido possível – e parecia preocupado, o pobre. Suponho que, novamente, não tenha compreendido minha expansão de Fourier que viabiliza a aplicação de funções de hash Chameleon sobre o protocolo. Pensando bem, não compreendo como ele podHERE’S JOHNNY! tão longe na hierarquia acadêmica, enquanto eu – muito mais preparado – não passo de um mero aluno de doutorado. A vida não é mesmo justa – alguém deveria acertar os ponteiros do relógio do mundo, eliminando o peso morto.

O cronograma para hoje é o seguinte: Primeiro, preciso preparar slides “a lá mobral” para explicar a expansão da transformada para o “chefe” – aquele inepto. Acredito que consiga concluir isso no meu horário de almoço. A seguir, preciso finalizar a revisão da prova de Wiles para incluí-la na tese. Esmiuçar os detalhes da magnífica produção matemática do americano é fundamental paraREDRUM REDRUM problema da parada. Mas antes disso, preciso levar de volta o machado à loja de ferragens – ainda não entendi porque a faxineira teria comprado tal ferramenta. E se não foi ela, quem teria sido? Eu me lembraria de alguma visita ter adentrado meu lar portando uma arma branca tão proeminente. Além disso, eu não tenho lareira em casa – todo mundo sabe. Estranho.

Por fim, não posso me atrasar para a reunião com os colegas de laboratório às quinze horas. O “chefe” fez questão de divulgar que eu tinha algumas notas a acrescentar à prova de Wiles, e todos parecem ansiosos pela minha apresentação. Eu estou bastante tranquilo – os resultados são sólidos e já se foi o tempo em que eu sofria de nervosMISERY CHASTAIN CANNOT BE DEAD! certo de que tudo correrá bem.

Ah sim – preciso também me lembrar de postar alguma coisa no blog. Minhas últimas descobertas têm me tomado todo o meu tempo, de forma que não consegui escrever nada próprio para hoje. Bem, talvez eu poste esta entrada do meu diário, que me parece relativSeven-six-two millimeter. Full metal jacket >:-D. É uma boa forma de demonstrar aos meus leitores que é sim possível executar um projeto de doutorado e, ao mesmo tempo, manter a sanidade e uma vida social saudável.

Bem, preciso preparar o material para a apresentação. Apontador laser, pincel atômico, noteboI'm Norma Bates!, machado, lonas plásticas… será que esqueci algo? Acho que isso é tudo.

10/12/2010


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Shopping centers

Se você acompanha as minhas postagens no Paciência Negativa, já deve ter percebido que sofro de um desapreço quase crônico pela raça humana. Enquanto espécie, somos mesquinhos, demagógicos, incoerentes, egoístas – e ainda assim acreditamos estar no topo da escala evolutiva, por sermos assim tão diferentes dos demais bichos. Por outro lado, há indivíduos que nos fazem ter orgulho – mesmo que um orgulho corriqueiro – da nossa raça. No final das contas, não se pode generalizar para nenhum dos dois lados: No mundo há muita gente admirável, com também há muita gente que nos desperta a mais legítima das auto-vergonhas alheias.

No entanto, uma coisa é consenso: Quanto mais gente aglomerada em um espaço restrito, mais ofuscados os exemplares dignos da espécie se tornam. As multidões têm a estranha capacidade de fazer com que até o mais louvável dos seres se porte da maneira mais irritante possível. E enquanto a maioria dos aglomerados reúne elementos de uma mesma tribo ou partidários de algum interesse comum qualquer, existem ambientes em que encontramos absolutamente todo tipo de gente – verdadeiras placas de petri sociais: Os shopping centers. E se podemos dizer que existe alguma coisa no mundo que se aproxima da pior definição de inferno de que se tem notícia, é seguro dizer que são os shopping centers nos finais de semana.


Qualquer shopping center que se preze conta com o kit completo para irritar até mesmo o mais devoto monge tibetano: Em primeiro lugar, é o palco onde os adolescentes ensaiam suas pecinhas de conquista. Por alguma razão, é extremamente normal encontrar matilhas de jovens do mesmo sexo à procura de uma presa fácil – ainda que não se tenha notícia de alguma caçada do gênero que tenha trazido qualquer sucesso aos protagonistas. Mas isso pouco importa: Sábado após sábado a molecada se dirige em peso, em busca de romance, aos centros comerciais – que de românticos não têm absolutamente nada. 


Ah, mas a presença massiva de adolescentes não é motivo suficiente para evitar um ambiente, caro autor”, você diz. Discordo. Mas seguindo essa linha de pensamento, devemos nos lembrar que os antagonistas dos adolescentes na linha da vida – os velhinhos – também encontram-se muito bem representados nos shopping centers. E velhinhos são fofos, velhinhos são legais, velhinhos são bonitinhos. Mas velhinhos em shopping centers são extremamente irritantes. Para começo de conversa, há os quase noventa porcento das vagas de estacionamento dedicadas exclusivamente a eles [sei que a porcentagem não chega a tanto, mas certamente me parece – cada vez que eu tenho que procurar uma vaga para colocar o carro]. Mas os velhinhos, que consideram tais vagas humilhantes, não as utilizam... bem, nunca. Pela mesma razão, evitam ao máximo o caixa eletrônico preferencial – preferem pagar todas as contas no único caixa que tem saque, e no único dia da semana em que a população do shopping center se aproxima de quatrocentas e trinta e nove pessoas por metro quadrado. E você, que só queria tirar dois reais para comprar uma casquinha do McDonnald’s, deve se contentar em contemplar aquele caixa preferencial vazio enquanto a fila atrás de você aumenta. 

Velhinhos e adolescentes, adolescentes e velhinhos – não dá para ficar pior do que isso. Mas dá. Porque os shopping centers, além de uma Torre de Babel de aniversários, é também o ponto predileto dos casaizinhos cuti-cuti. Afinal, que outro lugar seria melhor para estes verdadeiros praticantes do amor eterno demonstrarem ao mundo seu amor épico, do que um ambiente repleto de expectadores? E aí você está lá, esperando a sua vez na fila quilométrica de algum restaurante da praça de alimentação – pacientemente, sempre pacientemente. E quando está quase definhando de fome, a um passo de ser atendido, o casalzinho que se encontra imediatamente à sua frente na fila se atraca. Chega a vez deles, e eles não notam. A moça do caixa chama, re-chama, re-re-chama... mas aquele amor é grande demais para que eles ouçam. Mas a sua fome é maior – quem nunca cometeu um duplo-homicídio mental em uma hora dessas, que atire a primeira pedra. 


Adolescentes, velhinhos, casaizinhos. E passeadores – não podemos falar de shopping centers sem mencionar os passeadores. Sim, caro leitor, existem pessoas que se dirigem a um shopping center lotado no fim de semana com o intuito único de passear. E estes levam a família, é claro. E enquanto você traça na sua cabeça a menor rota possível para chegar do ponto A ao ponto B, irritado por precisar estar ali por alguma razão inadiável, os passeadores treinam para o casamento e param em vitrines – sem dar luz de freio. Você os tenta evitar, desvia, muda a rota on-the-fly buscando os corredores que tem menos vitrines – mas nada parece adiantar. Porque os passeadores detestam outros passeadores – acham que eles estão ali unicamente para atrapalhar aquela tarde tão gostosa em família. E te seguem, mesmo nos confins mais ermos do shopping. É nesses momentos que uma insuportável sensação de claustrofobia me acomete e eu me lembro com carinho daquele vídeo-clipe de Bitter Sweet Symphony – e tenho vontade de sair atropelando todo mundo. 


Odeio shopping centers, e os odeio ainda mais nos finais de semana. Você certamente já ouviu alguma comparação dos shopping centers a formigueiros. Pois eu discordo dessa analogia, e esclareço o porquê: Nos formigueiros, embora a população por metro quadrado seja relativamente a mesma que nos centros de compra, existe certa organização. Uma organização aparentemente caótica, é verdade – mas ainda assim criteriosa. As formiguinhas estão ali porque suas vidas dependem daquilo, e todas trabalham para um objetivo em comum. Bem diferente dos shopping centers, onde encontramos um buzilhão de pessoas reunidas pelos mais "inrelacionáveis" motivos. E o fato de este texto ter sido idealizado num sábado, e em um shopping center lotado, me faz pensar por que diabos a gente ainda se submete a esse tipo de coisa. E aí me lembro que, sendo integrante da Humanidade, não tenho melhor razão para justificar minha própria insensatez. 




[Pauta sugerida por Karina Mochetti (@karina_mochetti)]

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Fofo é o escambau!

O telefone toca:

– Oi, Ju! E aí, como foi ontem com o Leo?
– Ai, amiga... foi super demais! A gente saiu pra jantar, depois fomos a uma mostra de cinema em sampa. De lá, seguimos para um café e ficamos lá até de manhãzinha. Adorei!
– Juraaaaaa? E aí, curtiu o Leo? Acho que vocês tem tudo a ver!
– Nossa, ele é um fofo!

[Trilha sonora dramática]

Reflitamos: Juliana passou horas observando o armário, escolhendo o modelito, se maquiando, imaginando como seria seu primeiro encontro com Leo. O moço chegou no horário, tocou a campainha, ela atendeu a porta – e os olhares se cruzaram pela primeira vez. Jantaram, se divertiram, Leo fez Juliana rir – “que cara engraçado!” – descobriram interesses em comum... Amanheceram juntos em um café. E após uma noite na companhia um do outro, após horas a fio de mútua avaliação e observações cuidadosas, tudo o que Juliana tem a dizer à sua fiel escudeira a respeito de Leo é que ele é “fofo”. Conclusão? Isso não pode ser bom. Ao menos para Leo, já que Juliana acaba de encontrar seu próprio representante heterossexual de “amigo gay”.

Pausa para o protesto das leitoras. Pronto? Prossigamos.

A verdade é que não há absolutamente nada de errado com o adjetivo “fofo”. Veja os ursinhos de pelúcia, por exemplo – são fofos. Todos os que não são mortos por dentro gostam de ursinhos de pelúcia. O mesmo raciocínio se aplica àquele seu primo/sobrinho de oito anos, gordinho, espivetado e que usa um óculos fundo-de-garrafa: Ele também é fofíssimo. E provavelmente não há nada mais fofo no mundo conhecido do que um filhote de quase qualquer bicho. Ursos de pelúcia, sobrinhos gordinhos e filhotes – todos visões materializadas da fofura. O problema é que ninguém, em sã consciência, teria tesão em nenhuma dessas simpáticas criaturas [ou ao menos prefiro imaginar que não].

Quando um homem sai com uma moça – pasmem! – ele está repleto de segundas intenções. Ele pode ser um gentleman, pode ser tímido, pode ser virgem – mas invariavelmente, e por uma questão absolutamente instintiva, o que cada uma de nossas moleculazinhas de testosterona espera é que despertemos interesse sexual em nossa contraparte. E eu não estou dizendo que todo homem que sai com você, inocente rapariga, quer te comer de cara [mas também não estou dizendo que não quer]. Só estou esclarecendo que todos nós, absolutamente todos, sentimos uma inevitável invejinha daquele limpador de piscina latino, moreno e alto, que sempre aparece sem camisa exibindo seu abdomem definido nas telas de cinema – e que nenhuma de vocês nunca chama de "fofo". E tal invejinha nos acomete toda vez que as moças que nos acompanham suspiram por ele, ou quando notamos seus olhinhos brilharem pelo mentecapto. Por outro lado, quando um bebê fofinho aparece no comercial da Johnson & Johnson ou quando a leoa do zoológico municipal dá cria, nós não sentimos inveja alguma; nem mesmo quando vocês se derretem todas, tombam suas cabecinhas para o lado e pronunciam a onomatopéia mais classicamente feminina do mundo: “Óóóóóóóun...!”. Estão acompanhando? Limpador de piscina – “me-taca-na-parede-e-me-chama-de-lagartixa” – inveja. Bebê Johnson & Johnson – “ti-fofo!” – não inveja. É simples.

Particularmente, não conheço nenhum homem que ache digno ser considerado fofo por qualquer mulher. As mães/avós/tias são as exceções óbvias – mas apenas porque elas nos conheceram quando nossos pés cabiam na palma de suas mãos, e sempre nos verão imutavelmente como seres pequerruchos. O que eu estou tentando dizer, cara leitora, é algo que considero de fundamental importância  para a continuação da espécie: Toda vez que uma mulher sexualmente selecionável diz que um homem é fofo, uma centena de espermatozoides cometem suicídio coletivo.

E aí vêm os contra argumentos na seguinte linha: “Protesto, caro autor, protesto! Porcos tem um desempenho sexual invejável, experimentam orgasmos de meia hora e são fofos. Coelhos passam metade da vida fazendo sexo e são fofos. Você não sabe de nada!”. Tudo isso aí é verdade, mas eu rebato: Você não transa com porcos ou coelhos, transa? Sai pra jantar, fica esperando uma ligação no dia seguinte, suspira sozinha pelos cantos enquanto pensa neles... suspira? Não. Assim, me recuso a aceitar argumentos dessa espécie. A menos, é claro, que venham de porquinhas ou coelhas. Aliás, me arrisco a dizer que o desempenho dos porcos e coelhos só é tão invejável porque as porcas e coelhas não acham seus parceiros fofos. Tenho quase certeza.

Por isso, gostaria de iniciar aqui um movimento masculino anti-fofura. Já precisamos conviver com a idéia que vocês fazem de que “engraçado/bacana/legal/joinha/simpático” são elogios dignos e másculos – não são. “Atraente/charmoso/envolvente/cativante/inteligente/brilhante/gostoso/delícia” – estes são alguns dos adjetivos que provocam sentimento de dever cumprido em cada um dos nossos cromossomos Y. Mas se você PRECISA de um namorado fofo, não pode viver sem um, não tem problema – desde que você não o defina assim na frente dele ou para suas amigas. Melhor: Disfarce a alcunha em algo mais selvagem, sei lá... diga que é um troglo-fofo ou um fofo-sapiens. Talvez assim a gente se distraia com nossa própria imagem – ainda que falsa – de bárbaro com tacape e esqueçamos o sentimento de castração típico que acompanha cada “seu fofo!” que recebemos de vocês. Fica a dica.


[Pauta sugerida por Rozeli Mesquita (@RozeliMesquit)]

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Descomunicação

Internet, celular, MSN, Gtalk, etc, etc, etc. Nos encontramos provavelmente na Era de Aquário da comunicação – já disse isso aqui antes. No entanto, a tecnologia me parece cada vez mais ter avançado muito rápido – muito mais rápido do que nos mostramos capazes de acompanhar. Na internet, encontramos informação sobre absolutamente tudo – mas para tanto é preciso desviar de toda a pornografia. O email é muito mais eficiente que os correios – MUITO mais – mas temos que suportar os spams e os FWs “super hilários” que aquele parente chato manda a rodo para toda a família. No Youtube, é possível assistir programas de televisão que você perdeu ou tutoriais sobre absolutamente qualquer coisa – mas é também muito fácil perder horas assistindo vídeos imbecis publicados com o intuito de acumular Views. Enfrentamos tempos simultaneamente áureos e negros.

Particularmente, adoro a possibilidade de me comunicar através do computador. Existem poucas coisas no mundo que me irritam mais do que falar ao telefone – e diga-se de passagem, não são poucas as coisas do mundo que me irritam. Mesmo assim, sempre que o infeliz representante do legado de Graham Bell toca eu suspiro, me encho de boa vontade e, em um esforço máximo de boa vontade, atendo – mas não sem um notório tom de desgosto e auto piedade na voz: “Alô.”

Alô? Oiiiiiiii, tá ocupado?

Ai, meus sais – a reação é sempre a mesma. Por que eu atendi? Por que não deixei a joça tocar, tocar, tocar até cair a ligação? Afinal, é sempre algum amigo ou conhecido querendo conversar, pedir conselhos, contar alguma novidade interminável ou algo que o valha. Nunca é uma desgraça, uma emergência ou alguém dizendo que um parente rico morreu e me deixou uma herança milionária. E é por isso que gosto tanto dos emails – eles ficam ali quietos, esperando pacientemente a sua boa vontade para lê-los. E mesmo quando você os lê, pode se permitir algum atraso para redigir uma resposta – ou simplesmente ignorá-los por completo, em casos extremos. Bem diferente do telefone que, quando você atende, está irremediavelmente perdido: Só vai se livrar daquilo quando a situação proposta pelo interlocutor for completamente resolvida. E em tempos em que o próprio tempo é escasso, essa impossibilidade de procrastinação característica dos meios de comunicação das antigas é simplesmente inaceitável.

Mas mesmo os telefones encontraram na modernidade um espaço sólido para existir – na forma de celulares. É claro que a possibilidade de se fazer uma ligação de onde quer que estejamos é algo no mínimo prático pacas. Mas assim como podemos ligar para alguém a qualquer momento, todos assumem que podemos atendê-los a qualquer momento. Assim, o advento dos celulares privou a humanidade daquela velha desculpa do “eu não tava em casa” que você usava sempre que via um número indesejado aparecer no identificador de chamadas do telefone fixo. Pois é, a tecnologia também tem seu lado trágico. 

E no quesito tragédia, os mensageiros instantâneos – MSN, Gtalk e afins – são reis. Quem passa o dia todo conectado [presente!] está habituado a lidar com situações em que alguém nos chama e nós não estamos com a mínima vontade com tempo disponível para responder. Para estas situações, os complacentes tecnólogos inventaram o sistema de status: Você pode se identificar como “ocupado” ou “ausente” em qualquer mensageiro que se preze. Em tese, isso já seria suficiente para resolver o problema das chamadas indesejadas. No entanto, todos sabemos que a maioria dos chatos mais tradicionais acham que um “ocupado” não é mais que um status utilizado por quem acha que a bolinha vermelha é mais bonitinha que a verde – e nada mais. E te chamam. Se você não responde, te chamam de novo após dez minutos. A estes, deixo um recado: Se alguém está “ausente” e não respondeu sua mensagem anterior, não adianta mandar uma nova. Ou a pessoa ainda não voltou, ou ainda não quis te chamar de volta por algum motivo – e o repeteco de mensagens não mudará esta triste situação. E também não adianta mandar “nudge” – aquele irritante trimilique que mata a gente de susto enquanto tentamos nos concentrar em alguma tarefa mais importante – porque não só continuaremos a não responder como sentiremos uma inevitável raivinha da sua insistência sem noção. O inventor do “nudge”, aliás, deveria ter um espacinho especial reservado no inferno.

Nunca foi tão fácil se comunicar como atualmente – e como tudo, isso traz prós e contras. E em meio a tantas possibilidades de contatar alguém a qualquer momento, acho natural que a gente se perca um pouco – mas seria ótimo se todos procurássemos exercitar um pouquinho de bom senso com as ferramentas modernas. Todo mundo já passou por uma situação na seguinte linha: A pessoa te liga no celular e diz “Ô, te mandei um tweet, vê lá quando puder”. Aí você entra no Twitter, e vê que o indivíduo escreveu assim: “DM”. Aí você clica nas suas DMs e lá está: “Te mandei um email”. Perdendo a paciência, você entra na sua caixa de emails, clica na mensagem do infeliz e, finalmente, vê o que era tão importante: “Preciso falar com você. Me liga quando puder”. Pô! 


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Intuitável

Acabo de notar que passei todo o período eleitoral sem escrever quase nada de cunho político. Também evitei de me envolver em discussões casuais sobre o tema, e procurei me manter neutro nas redes sociais de que participo. E esse ostracismo auto-impingido não foi descaso por um assunto que, obviamente, é digno de atenção – foi apenas uma tentativa de não me estressar mais do que o necessário, e nada mais que isso. E passadas as eleições, declaro que falhei: Fazendo parte de uma minoria não-militante, me estressei ao me dar conta de que teria me estressado ainda mais se não tivesse ficado calado – uma espécie de meta-estresse. Me estressei ao me dar conta de que eu não escolhi não contribuir para a discussão – fui praticamente obrigado a fazê-lo, em virtude da intolerância sem precedentes que se instaurou nos meus círculos sociais por causa da eleição presidencial. Me estressei, portanto, ao perceber que existem coisas intuitáveis.

Mas este não será um texto sobre política, tranqüilizem-se. Hoje abordaremos a intuitabilidade das coisas – algo muito mais profundo, filosófico e tal.

Intuitável (in-tu-i-tá-vel), adj.: Pensamento, idéia ou opinião que, se emitida em meio a um grande volume de pessoas, desperta o monstrinho da intolerância que vive dentro de cada um de nós. Termo originado em uma rede social virtual – o Twitter – mas que pode ser facilmente extrapolado para o mundo real. Por exemplo, responder “sim” à pergunta “Estou gorda?” de uma mulher é algo intuitável. Declarar-se torcedor de qualquer time que não seja o Brasil em época de Copa do Mundo é algo intuitável. Perguntar a alguém se ele é homossexual é algo intuitável, na maioria dos casos. E assim por diante.

Reparem – o mundo está repleto de pensamentos intuitáveis. No micro-cosmo das redes sociais, em particular, a situação é ainda mais complicada: Você pensa em algo, motivado sei-lá-pelo-que, e escreve. Aquela idéia cai em meio a tantas outras e, muitas vezes, encontra um contexto – mesmo que não seja aquele que você previu. E aí já é tarde demais: A esbórnia já está feita, alguém veste a carapuça e o caos se instaura. Tudo porque você se esqueceu, mesmo que por alguns segundos apenas, de que as pessoas têm uma tendência quase irresistível de acharem que tudo o que é dito no mundo é direcionado a elas. O mundo, aliás, é a entidade mais cheia de umbigos de que já se teve notícia.

Política, futebol, religião, arranca-rabos anônimos – todos temas intuitáveis. Especificamente na nossa terrinha, expressar sua oposição a qualquer linha de pensamento – seja através da argumentação contra algum partido político ou através da discordância de algum princípio cultuado por alguma igreja qualquer – é automaticamente entendido como ofensa pessoal aos que concordam com aquilo. Da mesma forma, experimente escrever na sua rede social predileta algo na linha de “Tem gente aqui que se acha a última bolacha do pacote”: Imediatamente, aquela carapucinha que você arremessou tão despretensiosamente na arena será disputada com unhas e dentes por uma porção de terceiros, quartos e quintos – mesmo que você a tenha tricotado para sevir em uma cabeça específica. Aparentemente, no escopo das coisas intuitáveis, todas as carapuças vêm em tamanho único.

E aí entra outro termo intimamente relacionado à intuitabilidade: O das panelas. Esse todo mundo conhece: Na escolinha, sempre existiam aqueles grupinhos quase impenetráveis, que reuniam gente com alguma similaridade. E todos os que ficavam de fora abominavam as panelas – e passavam boa parte do seu tempo útil dissertando sobre como as panelas eram ruins, chatas e bobas. E debatiam ferrenhamente sobre a injustiça daquele feudalismo social, em conversas animadíssimas – conversas estas protagonizadas com os membros de suas próprias panelas.

Mas a verdade é que nas panelas, ao menos, não existem pensamentos intuitáveis. Tudo o que você diz ali é recebido pelos seus pares como algo digno de reflexão – mesmo que seja a bobagem mais ofensiva do mundo. É como se seus “sócios” procurassem entender os reais motivos que o levaram a dizer aquilo, o que quer que seja – uma espécie de contra-intolerância que tem feito falta no mundo não-panelístico. E não estou me referindo aos tristes casos em que todos concordam cegamente com o que outro colega culinário diz: Minha apologia às panelas se limita aos casos em que seus membros exercitam a sensatez de ponderar sobre uma idéia antes de atacá-la irracionalmente – mesmo que seja para discordar de forma civilizada depois. Idealmente, este benefício se estenderia para além dos limites da panela – e o conceito de intuitabilidade seria extinto da face da terra.

Civilidade – é disso que tenho sentido falta nos círculos que freqüento. Em uma época em que a comunicação anda tão em voga, com tamanha disponibilidade de inúmeros mecanismos para reduzir as distâncias entre as pessoas, a intolerância parece correr mais solta do que nunca. Tenho saudades de tempos em que poderíamos expressar a mais absurda das opiniões e mesmo assim seríamos ouvidos, respeitados e apoiados/contra-argumentados civilizadamente. Tempos em que uma discussão não tomava, pelo menos não sempre, as dimensões de uma guerra civil que deve ser resolvida com o extermínio de um dos dois lados. Concordo que não é fácil conviver com tanta gente com opiniões assim, tão diversas das nossas. Mas simplesmente ofender, atacar e arrancar tais pessoas do nosso convívio me parece algo no mínimo infantil – atitudes da mesma natureza de “dar o dedinho” e “tô de mal, come sal”. É claro que a cada um deve ser garantido o direito de selecionar seus convíveres, não é isso que eu questiono. Questiono apenas os motivos para tal. Afinal, seres humanos são muito mais do que uma opinião sobre assunto X ou Y – e respeitar as diferenças de cada um deveria fazer parte de relacionar-se.

Pensando bem, este texto talvez seja intuitável. Mas agora já foi.


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Mudança

Encaixota. Joga fora. Sobe escada. Desce escada. Prédio sem elevador – cinqüenta e quatro degraus me separam do térreo. Caixas pesadas – mas vou levar duas para economizar uma viagem. Suspensão do carro agüenta? A minha suspensão agüenta, o carro que se vire para agüentar também. Suor, sangue e lágrimas: Só mais um dia de mudança. Cansaço – mereço um banho: Droga, o sabonete já foi. Paciência, detergente taí pra isso.

Caos. Caixas. Desgaste. Caixas. Eco em um quarto vazio. Caixas. Droga, tenho um blog pra atualizar... e não sei fazer upload de caixas.

Ok, ok – eu escrevo um texto, mesmo não tendo a menor condição para isso. Mas a verdade é que, de todas as partes do meu corpo, os dedos são as únicas que não estão doendo agora. E além disso, apenas meu PC se encontra acessível nesse domingão ensolarado – eu poderia ler um livro, assistir um filme, jogar videogame, etc, etc, mas todas as minhas tralhas (à exceção do PC) encontram-se encaixotadas. Não há para onde fugir, não há para onde correr – todos os objetos de procrastinação a que eu poderia me apegar estão inacessíveis.

Eu. Odeio. Mudança. Com. Todas. As. Minhas. FORÇAS.

Os beduínos e afins que me perdoem, mas acredito piamente que a raça humana não foi projetada para o nomadismo. Temos uma tendência natural de nos enraizarmos em algum canto, sempre – canto este a que, independentemente de tamanho/localização/estado, carinhosamente aprendemos a chamar de “lar”. E que acaba se tornando o cenário de incontáveis sonhos, inúmeras memórias; acaba se tornando nosso porto seguro, nossa pequena caverninha particular onde nos sentimos protegidos. Por um tempo finito, é verdade – porque em nossa eterna insatisfação tipicamente humana, estamos sempre buscando uma nova casa desde o primeiro minuto em que nos instalamos na atual. Trágico.

Sim, não fomos projetados para o nomadismo – e a maior prova disso é a incrível tendência que temos de juntar coisas sem sequer notarmos. Quem  nunca segurou algo completamente inútil nas mãos, enquanto refletia se deveria ou não jogar fora, que atire a primeira pedra. Você pára em frente ao cesto de lixo, olha para aquilo e pensa se não vai se arrepender depois. Pensa se, minutos após o caminhão de lixo passar, você não vai precisar daquilo mais do que tudo – o que quer que “aquilo” seja. E então você se lembra daquele armário/maleiro/espaço vazio no porão e conclui: “Por via das dúvidas, é melhor guardar...”. Grave erro – você apenas acaba de prorrogar aquela difícil decisão para uma época muito mais caótica da sua vida: Uma época em que sua mente estará ocupada com transferências de endereço, atualizações cadastrais, reformas em uma caverninha-bebê que estará prestes a se tornar seu novo lar. Uma época governada por caixas – que de repente, terão se tornado o bem mais valioso do mundo. E em tempos assim, você só consegue sentir um desejo incontrolável de trocar “aquilo” – bem como quase tudo o que você tem – por duas ou três caixas a mais. É, você deveria ter jogado aquilo fora quando estava em plenas faculdades mentais.

Mas existem empresas especializadas em mudanças, caro autor” – você me diz, complacentemente. Sim, existem – e elas cobram caro, perdem caixas com os seus bens e quebram itens valiosos. A verdade é que eu não consigo deixar de pensar que o motorista do caminhão que leva todas as minhas tralhinhas tão amadas vai, invariavelmente, passar por alguma lombada engatado em terceira, quarta ou até quinta marcha. E fico pensando nos meus eletrônicos, pratos, canecas e afins colocando os bracinhos para o alto e gritando, como se estivessem em uma montanha russa. E esta visão hedionda SEMPRE me motiva a ceder ao desgaste emocional/físico/psicológico de encaixotar e transportar tudo eu mesmo. Paranóia? Talvez. Mas os teimosos beduínos não têm eletrônicos, pratos ou canecas – e acredito que deva existir algum motivo para isso.

Assim, como em tantas outras ocasiões, não consigo deixar de pensar que o ser humano não se encontra no topo da escala evolutiva. Alguns diriam que os golfinhos são mais inteligentes. Outros, que os cães são muito mais leais e verdadeiros – e portanto, mais evoluídos que nós. Gostaria de concluir este texto com minha humilde contribuição para essa discussão: Caracóis. Na próxima vida, gostaria de vir ao mundo imutavelmente anexado à minha casa, e incapaz de encaixotar qualquer coisa. Também aceito nascer como tartaruga, jabuti, cágado – tanto faz. Qualquer espécie auto-habitável me parece, no presente momento, muito mais digna de admiração do que nós, esses estranhos bichos que passam a vida a juntar coisas e a movê-las de uma toca a outra, somente para eventualmente repetir o processo. Hábito este que, pensando bem, nos torna muito mais próximos a um outro bichinho da natureza, do qual ninguém nunca se lembra: O besouro rola-bosta.


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Nece... o que?

[Texto-resposta a “Necessaire”, postado originalmente por Mercedes Gameiro no Caixa Preta.]


Celular toca. Toca. Toca. Ignoro – o metro e meio que me separam do aparelho não podem ser cobertos pelo meu braço, por mais que eu me esforce em esticá-lo [motivo pelo qual a cerveja se encontra a quarenta centímetros de mim]. “Se fosse importante ligariam em casa”, penso. Telefone de casa toca – saco.

- Alôôô.
- Fabio? Nossa, tá bravo?
- Ah, é você, Ella. Não, não tô bravo. Telefone tava longe, desculpa a demora.
- Ah...
- ...
- ...
- Que houve, Ella? Você só me liga quando precisa de opinião masculina sobre algum cara que está te confundindo. Vai, desembucha.
- Ai, seu grosso, não é verdade. Ligo pra saber de você, porque você é meu amigo e...
- Ella.
- É por causa da necessaire. Tá no armário de novo, mas eu não quero que esteja. Quero colocá-la de volta na minha bolsa.
- Nece.. o que?
- Ai, Fabio, necessaire, necessaire! Aquela bolsinha com base, demaquilante, etc. Kit de primeiro socorros que toda mulher traz na bolsa.
- Ah, a bolsa que vocês guardam na bolsa. Você não tá achando sua necessaire, é isso?
- Não! Ela tá no armário. Esse é o problema.
- Ah, entendi. Vá até o quarto, abra o armário, pegue a necessaire e coloque-a na bolsa de volta. Voilá – problema resolvido. Beijo.
- Vocês homens não entendem nada, mesmo! Tá vendo, é por isso que a necessaire tá no armário.
- Ella... elabore, por favor. Você tá parecendo a doida da Mercedes, não diz coisa com coisa. Ainda não entendi qual é o problema.
- Vocês homens são muito limitados. Acho que vou ligar pra Mercedes de novo.
- Isso, liga. Beijo.
- Ogro! Desculpa incomodar, tá? Você vai ver só quando precisar de conselhos sobre como ser romântico de novo.
- Como eu ia dizendo, prossiga, por favor. [suspiro]
- Então, ele sumiu de vez – lembra, o cara de outro dia?
- Lembro. O cara perfeito, o Yin do seu Yang, a tampa da sua panela. Lembro sim. Que tem ele, terminou com você?
- Não, não terminou. Mas ele não é nada disso aí que você está dizendo, ele é um crápula.
- Mas não sou eu quem disse tudo isso, foi você que ainda outro dia me diss...
- Não fui, ele é um crápula e pronto.
- Mas ele não...
- CRÁPULA!
- Tá. Prossiga.
- Então, ele simplesmente sumiu. Não dá notícias, não me liga, não me manda mais emails, não me chama pra sair.
- Hum.
- É isso, ele me odeia.
- Calma. Você deduziu que ele te odeia porque não tem batido cartão com você. É isso?
- É. Aquele crápula.
- Normal.
- Normal??? Seu crápula!
- CALMA. Ó, vocês mulheres não conseguem pensar com cabeça de homem. Vem cá, esse não era aquele cara enrolado?
- Era, esse mesmo. Mas parece que não tá mais enrolado, tá completamente desenrolado, na verdade. Achei que, por isso, viria correndo atrás de mim.
- Péééé – erro número um.
- Como assim?
- Claro que não viria. Pelo que você está contando, ele tem todos os motivos do mundo para ter dado uma desaparecida. Homem resolve um problema por vez, querida. A versatilidade é coisa do cromossomo X.
- Ai, como vocês são limitados.
- Somos. Não quero te atrapalhar mais com a minha limitação proveniente do cromossomo Y – boa sorte com o problema. Beijo.
- Não, espera!!! Desculpa, vocês não são limitados. Prossiga.
- Hunf.
- Lindo, querido, atencioso, amigo do coração, gost...
- Chega de puxar o saco. Presta atenção.
- Tá.
- Então, ele era enrolado, ok. Isso fazia de você uma aventura. Agora, ele está livre. Isso automaticamente te promove ao posto de “candidata a futura oficial”. E isso muda tudo.
- Ai, que absurdo! Mas ele sabe que eu não espero nada dele além do que a gente tinha antes. Eu quero estar com ele, não quero ser a mãe dos filhos dele.
- Sim, mas você é mulher. Homem, por mais que não assuma, não sabe ficar sozinho. Sempre tem uma namorada/esposa/ficante fixa/amante recorrente/candidata predileta para ocupar o posto de “oficial”. E essa, é tratada de forma diferente das outras.
- Não tô entendendo nada. É por isso que ele me IGNORA?
- Ele não te ignora, não necessariamente. Talvez só esteja medindo as palavras. Te perder, agora, se tornou mais preocupante do que antes.
- Continuo perdida.
- Ai, como vocês são limitadas.
- Grrrr... Tá, um a um.
- Vamos lá, metaforazinha: É um joguinho de campo minado. Antes, você não era a oficial – se ele pisasse numa mina com você, perderia uma vida e continuaria no mesmo ponto do tabuleiro. Agora, você É a oficial, ou a mais próxima disso. Se ele pisar numa mina, é game over – ele volta para o começo do jogo.
- Você tá dizendo que me perder agora seria mais danoso pra ele do que seria antes?
- É exatamente o que eu estou dizendo, Ella.
- E é por isso que ele sumiu? Mas isso me faz querer esquecê-lo, não tem a menor coerência.
- Somos homens. Coerência não se aplica, não sempre. Ele só vai voltar quando terminar de resolver quaisquer problemas que o “desenrolamento” dele possa ter trazido.
- Ai, mas será que ele volta? Você tá me dando esperanças, será que ele ainda me quer, então? Mais do que antes?
- Eu não disse isso.
- Mas...
- Eu disse como é que os homens funcionam. Disse que SE ele ainda gosta de você, é perfeitamente natural que suma nesse momento confuso da vida dele. Mas sempre tem a hipótese de ele ter cansado de você.
- ... ... ...
- Ella?
- Vocês homens deveriam vir com manual de instruções, sabia???
- A gente é fácil de lidar, vocês é que complicam. Pense nos homens como moleques mimados. Se seu filho de oito anos parasse de falar com você, e se fechasse no quarto por dias – porque está entretido com um jogo de videogame muito difícil – o que você faria? Bateria na porta de hora em hora oferencendo carinho e atenção?
- Não, claro que não. Moleque quando se enfia no videogame acha que o mundo vai acabar se ele não se superar naquilo. Não consegue pensar noutra coisa, enquanto não ganha – pode acabar o mundo. Além disso, uma hora ele cansa e volta todo meloso.
- Certo. E o que mais?
- E se ele estivesse me ignorando por birra, minha insistência só faria com que ele me odiasse por não entender que ele quer espaço. E se ele tem algum problema pra resolver, não é com a mãe que ele vai compartilhar, não mesmo. Uma hora ele vai precisar de mim, afinal sou a mãe dele e...
- Exato.
- Exato o que?
- Você acaba de compreender cabeça de homem. É como a cabeça de um moleque de oito anos.
- Mas nós não estamos falando de filhos, estamos falando do...
- Ella... don’t kill the messenger. Reclamações com o fabricante – dirija-se à igreja mais próxima.
- Ai, não é possível que vocês sejam assim tão... tão... infantis! É... entendi... acho... Mas não faz sentido! Como vocês podem enxergar relacionamentos com esse simplismo todo?
- Coisa do cromossomo Y. Era só isso? Tá começando o jogo.
- Era... só... acho...
- Mas eu ainda não entendi uma coisa.
- Você não entendeu??? Imagina eu, então! Tá, fala.
- O que DIABOS a bolsinha tem a ver com isso tudo??
- Ah... deixa pra lá. Coisa de mulher. A Mê entende.
- E depois é a gente que é complicado. Beijo.
- Beijo... brigada, viu? Acho.
- Disponha.
- Viu, tô indo pro bar. Quer ir junt...
- JOGO.
- Tá bom, tá bom. Beijo tchau.
- [Click]

As amigas que eu tenho... não sei o que seria delas sem um intérprete XX – XY. E para isso, eu estou sempre dispon... CARALHO, JUIZ LADRÃO!!


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Herdeiros do amanhã

Ah, enfim chegou o Dia das Crianças. Data mais linda, em que celebramos a inocência e a pureza dos pequenos pimpolhos que nos trazem tanta encheção de saco alegria – e que nos mostram que a vida ainda vale a pena, que o mundo ainda não está completamente perdido. E quem nunca sorriu bobamente ao presenciar um destes projetinhos de seres humanos protagonizando alguma fofurinha indescritível, é porque tem o coração gelado e está irremediavelmente morto por dentro. E estes, em geral, exercitam sua frieza e insensibilidade escrevendo textos cínicos sobre as criancinhas, em plena semana do Dia das Crianças – o que eu, particularmente, considero um absurdo inominável.

Sim, porque nenhum adulto em sã consciência deveria ser capaz de não gostar de crianças. Ok, ok, elas são barulhentas, relativamente indomesticáveis, melequentas, birrentas e em geral não cheiram bem – mas nada disso se compara à alegria que trazem àqueles que convivem à sua volta. Os fabricantes pais que o digam – pois a cada brincadeira ou peripécia, estes experimentam a mais saudável sensação de plenitude que se é possível experimentar na vida. Pobres daqueles solitários adultos que nunca experimentarão, por opção ou falta dela, este sublime sentimento que é ser pai: Ter um monstrinho pequerrucho para chamar de seu – não há objetivo de vida mais nobre do que este, suponho.

Mas infelizmente, ainda não fui agraciado com uma pessoinha-mirim para adestrar segundo meus próprios valores. E sei que ninguém sensato abriria mão de contribuir para a superpopulação global com mais um indivíduo, posto que é exatamente isso que a sociedade espera de nós “enquanto cidadãos”. Este mundo lindo, perfeito e justo em que vivemos deveria ser aproveitado ao máximo – se não por nós, por nossas crias. E se não por elas, por suas crias – e assim sucessivamente. E assim, de geração em geração, a Humanidade vai passando para a frente a responsabilidade da restituição de valores de que as gerações anteriores se esqueceram, descuido este que faz do nosso mundo um cenário menos lindo do que foi o mundo dos nossos antepassados. Salvadores – a maioria das pessoas enxerga em seus próprios filhos salvadores de tudo o que houve de mais belo. Mas se esquecem que, um dia, eles também foram vistos como os messias da sua época – e muito provavelmente falharam em sua tarefa de resgatar o mundo das atrocidades de outrora. E dessa forma, não lhes resta outra opção além de espalhar sementinhas de esperança pelo mundo, pois – essas sim – serão capazes de reverter a famigerada inércia apocalíptica que nos arrasta para um irremediável e doloroso fim dos tempos.

Por isso, me desculpem se, ano após ano, tenho menos esperanças quanto à nossa permanência indeterminada, enquanto espécie, nesse mundão lindo de meu Deus. Não é inconformismo, é apenas discordância declarada do senso comum – recuso-me a pensar na nossa juventude como “o futuro da nação”, ou como “os herdeiros do planeta”, ou ainda como “a geração de Aquário”. Atribuir tamanha responsabilidade a quem acabou de chegar nessa balbúrdia, quando nem mesmo nós – os protagonistas vigentes dessa pecinha terrena – fomos capazes de contribuir para o melhor espetáculo possível, me parece no mínimo insensatez comodista. E confesso que me sinto mais orgulhoso ao ver um velhinho reciclando lixo, ou uma senhora na meia idade auxiliando o próximo, do que quando presencio o nascimento de uma nova “semente de esperança” – trazida a um mundo torto por adultos tortos, que acreditam que sua contribuição para a sociedade já foi concluída com a produção daquele pequeno “herói do amanhã” que acaba de receber a dádiva da vida. “Mas eu nasci para ser mãe...” – compreendo, mas sinto que já temos exemplares demais de parideiras. Estamos em escassez de “Quero fazer a diferença antes de morrer” e de “Eu queria ter filhos, mas antes há muita coisa a consertar”.

Chances – todos temos chances incontáveis de melhorar o mundo com nossa curta passagem por essas bandas. Pode ser uma contribuição mínima, ou algo mais impactante – pouco importa, na verdade. A grande questão é que acomodar-se na posição de produtor de seres humanos, na esperança de que estes façam todo o trabalho sujo por você, não me parece a melhor forma de aproveitar sua estadia no nosso planetinha tão acolhedor. E papais e mamães, de uma vez por todas: Gente que não tem filhos não é – compreendam de uma vez – digna da sua pena. Não somos pobres seres humanos incompletos que abriram mão da dádiva do Senhor em nome de um estilo de vida hedonista – não todos, ao menos. Muitos de nós, na verdade, nos fazemos muito mais plenos do que vocês – e preferimos tentar botar alguma ordem na casa antes de trazer novos visitantes por aqui. Teremos tempo? Possivelmente não. Mas ao menos temos a consciência de que a bagunça é nossa e portanto é também nossa a responsabilidade de tentar fazer do mundo um lugar minimamente apresentável – ainda que, neste caso, para os seus filhos. Não nos agradeçam – apenas nos poupem da sua piedade progenitora cega.

E assim concluo minha pequena homenagem à molecada. E ao invés de exigir que se façam mais competentes do que nós enquanto guardiões do mundo, sugiro apenas que se divirtam em sua passagem por aqui. Se conseguirem fazê-lo sem interferir negativamente na diversão dos coleguinhas, ótimo. Se forem capazes de reverter o cenário hediondo que só piorou com a visita dos seus papais e mamães, tanto melhor. Mas não espero que tenham sucesso na empreitada, nem que se crucifiquem por não conseguirem salvar o mundo. Nós também não conseguimos.


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Virtualices

Você abre a geladeira e procura uma latinha de cerveja. Como na maioria das vezes, você não encontra [as cervejas têm o estranho hábito de se ausentarem quando se fazem mais necessárias], mas isso não é problema: Basta fechar a porta, digitar “cerveja” no painelzinho futurista que se apresenta na sua frente e aguardar o moço da entrega lhe trazer um engradado do néctar dos deuses. Legal? Certamente. Ficção científica? Já foi – os primeiros protótipos de geladeiras interativas já estão dando as caras por aí. Bizarro? Sem sombra de dúvidas. Mas bizarro ou não, a cerveja chega rápido e meu fígado impaciente agradece.

Há cerca de quinze anos, bizarros eram os poucos computadores pessoais que traziam a estranha habilidade de se conectar ao mundo através dessa tal de Internet. Ainda me lembro nitidamente daquele som característico, que lembrava o desespero de um gato enclausurado em uma panela de pressão, que o modem fazia ao TENTAR me ligar ao mundo – tentava, tentava e muitas vezes desistia. Mas quando conseguia, me permitia passar noites em claro conversando com meus outros dois ou três amiguinhos que também tinham Internet – tudo pelo ICQ, mIRC ou chat da UOL. Não existiam Orkut, Twitter, MSN, Webcam, Facebook, FarmVille, blogs ou sei-lá-o-que-mais. Eram, portanto, tempos menos modernos e mais simples.

Hoje, as comunidades virtuais dominam o mundo. E mesmo que você vista uma boina, deixe a barba por fazer e assuma uma postura de “Che Guevara de boutique” – e se recuse a ter Orkut ou algo que o valha – sinto informar: Você está aqui agora, lendo este texto que foi escrito por alguém que nunca viu e provavelmente mora em outra parte do planeta. E assim, você não se encontra em uma situação assim tão distinta daqueles que passam os dias cultivando alfaces em suas fazendinhas virtuais, nem daqueles que bebem com os amigos avatares no Twitter às sextas à noite – quando poderiam estar em bares reais, acompanhados por pessoas reais. Você também poderia estar lendo um livro real – mas está aqui comigo, não está? Pois então – somos escravos do mesmo Deus de mentirinha, criado por bits e bytes e adorado por seguidores que se disfarçam de JPEGs. Resistir é inútil – mas se você ainda quiser tentar, acesse o ReclameAqui.com e acrescente seus pensamentos ao banco de dados.

É interessante pensar que muita gente substitui uma parcela considerável da vida real por essa tal de virtualidade. Há inclusive aqueles que preferem sua vida social virtual à real, e trocam noitadas tradicionais por algumas horas a mais na frente do computador. Confesso que não posso culpá-los: Me parece muito mais confortável passar a noite cercado por janelinhas e letrinhas, ao som dos meus MP3s prediletos, do que passar a mesma noite cercado por gente de carne e osso desinteressante e conversas insípidas, ouvindo algum batuque moderno desses que não me agradam nada. O mundo virtual também me permite encher a cara sem medo das batidas policias na volta para casa, fumar em local fechado – minha sala de estar – e encerrar conversas desagradáveis com um leve movimento de dedos. O mundo real, por outro lado, me garante uma ou outra experiência física válida [dentre tantas outras frustrantes], me obriga a vestir camisa e a trajar algo menos confortável que meu short azul-marinho de algodão. A concorrência é desleal.

E aí vem aqueles japoneses malucos sujeitos extremistas dizendo que é possível se apaixonar online. Hoje, é cada vez mais comum gente que se casa sem ter nunca sequer encontrado o(a) noivo(a). Acho lindo – longe de mim condenar qualquer forma de amor, ainda mais uma assim tão moderna e tecnológica. Mas vem cá, convenhamos... como DIABOS alguém se apaixona por um bando de letrinhas e imagens de vídeo, um personagem criado por outro alguém sentado do outro lado da tela? Como é que alguém tira o retrato do ser amado de cima do criado mudo, e coloca um bitmap no lugar? Cheiro, gosto, presença – sempre acreditei serem componentes cruciais para o envolvimento emocional, mas talvez sejam apenas meros detalhes. E o Admirável Mundo Novo não se atém a detalhes – prefere se ater a ideais. Relacionamentos criados a partir de ideais: Acho esquisito. Há quem diga que é possível, mas até aí tem louco pra tudo nesse mundo.

Vivemos em tempos estranhos, não há dúvidas disso. O mundo lá fora continua, talvez, tão convidativo quanto antes – mas nunca tinha encontrado competição à altura até agora. “A realidade é melhor que qualquer ilusão” – poucos contestariam. Mas mesmo a realidade sempre exigiu um certo faz-de-conta, um fingimentozinho básico de quem a idolatra: Trabalhar cedo fingindo bom humor matinal, esconder aquela espinha teimosa com maquiagem, evitar de mandar o chefe à merda quando é só o que nos passa pela cabeça, balançar assertivamente a cabeça enquanto se ouve uma história maçante proferida por algum amigo... Avatares que só podem ser desconectados fora do horário comercial, quando chegamos em casa e nos encontramos entre quatro paredes. E é precisamente neste momento que nos sentamos confortavelmente à frente do PC e buscamos nas janelinhas digitais o alívio para essa virtualidade analógica que fica retida do lado de lá da porta. Confuso? Talvez. Mas não é minha culpa se ninguém escreveu ainda um software para simplificar o mundo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Um conselho...

Um dia desses fui abordado por um amigo desesperado por uma opinião externa para resolver um problema pessoal. “Tô precisando de uns conselhos, cara” – esta foi a sentença utilizada pelo moço que, em um momento ínfimo de distração minha, conseguiu o que buscava: Alguém que se dispusesse a resolver – ou ao menos a tentar resolver – o problema que incomodava sua pobre alma aflita. Horas se passaram entre explicações e detalhes de uma história sórdida que nem era minha, mas que eu ouvia atentamente na esperança de manufaturar um conselho minimamente aproveitável. E quando finalmente fui capaz de expressar um parecer sobre a odisséia emocional que meu interlocutor enfrentava, veio a reação inesperada: “É... vou pensar... valeu.

Ao ser agraciado com este eloquente agradecimento, pude notar que eu não havia ajudado em absolutamente nada meu infeliz amigo. E não havia sido por falta de esforço – eu havia escutado a história, havia me colocado no lugar daquele ser confuso, havia tecido pensamentos e ponderado soluções. Havia, enfim, exercitado minha curta paciência, na esperança de auxiliar o próximo – e tudo em vão. E foi então que cheguei a uma conclusão quase óbvia: Conselhos são, em essência, algumas dessas tantas coisinhas inúteis inventadas pelo bicho homem – e sem as quais ele não consegue, no entanto, viver.

Pensemos friamente – afinal todos já nos vimos desesperados por algum desses simpáticos palpites alheios: Em primeiro lugar, o problema é – seja qual for ele – única e exclusivamente seu. Este fato, por si só, já deveria desanimar qualquer requisição por intervenção externa – pois só você, o pobre sofredor, conhece todas as nuances do quebra-cabeças que tenta montar. E se nem você, que já está ali imerso em pecinhas há nem-sei-quantos dias, sabe qual é a que está faltando, imagine então o conselheiro que está chegando agora para brincar. “Ah, mas um olhar de fora pode enxergar algo que está ali na minha frente e eu não vi...”, você diz. Neste caso, insisto: Você não precisa de conselhos – precisa prestar mais atenção em sua própria baderna e, no pior dos casos, de óculos.

Segundo: Mesmo na animadora hipótese de você ser um contador e tanto de histórias, e do ouvinte ter uma concentração digna de um monge tibetano, as chances são de que ele vai, em algum momento durante a sua exposição, parar de prestar atenção nas suas lamúrias. Eu sei que dói, mas a verdade é que problemas todos nós temos. Assim, seria prepotência sua imaginar que seu conselheiro não está, enquanto lê seu relato trágico no MSN, pagando alguma conta atrasada ou pensando em uma forma de escapar à sua carência – possivelmente com o intuito compreensível de buscar soluções para suas próprias aflições. E dessa forma, é muito possível que ele perderá algum detalhe crucial – ou que você considere crucial – para a elaboração de um conselho adequado (supondo, otimistamente, que estes sequer existam).

Terceiro, mas não menos importante: Se seu problema é cabeludo o suficiente para que você dispare o bat-sinal em busca de um herói anônimo – ninguém busca conselhos sobre qual é a melhor marca de cerveja ou sobre onde almoçar numa quarta-feira – você corre o sério risco de se tornar assunto da próxima reunião da turma a que você deixar de ir. “Ah, mas meu conselheiro é leal e jamais participaria outros dos meus problemas...” – tá, vamos seguir por esta linha, então. Seu amigo pode ser tão leal, mas tão leal, que seu problema cabeludo disperte-lhe o interesse e se torne, portanto, problema dele também. E nesse caso – sim, você adivinhou! – ele vai buscar conselhos com os próprios amiguinhos. E estes, sendo também muito leais, buscarão pareceres cada vez mais externos. Entendeu? Então uma extensão de pensamento: Quanto mais cabeludo o seu problema, e quanto mais leais aqueles a quem você busca na hora do desespero, maiores são as chances de você se tornar um palhacinho de um circo que você mesmo armou.

Portanto, deixo aqui um conselho uma sugestão: Pedir conselhos é aconselhável somente se falar dos seus problemas lhe traz algum conforto. Da mesma forma, dar conselhos é um ato louvável – desde que você não se importe de gastar sua saliva e seu tempo em uma atividade que, possivelmente, não trará nenhum benefício concreto ao solicitante. E por fim, conselhos em si, enquanto artefatos de solidariedade, são completamente dispensáveis. Tenho certeza que alguma estatística por aí comprova que existem muito mais conselhos descartáveis do que aproveitáveis. E assim sendo, como todo serviço mal executado que se preze, a melhor solução é cobrar – e cobrar caro – por eles. Assim, você se protege “enquanto prestador” – recebendo algum dividendo pela atividade exercida – e também “enquanto consumidor” – pois poderá ao menos acessar o PROCON, no caso provável de algum palpite alheio piorar a sua situação que já não era boa no princípio.

Antes de concluirmos, anote aí, como cortesia: “Se conselho fosse bom, a gente não dava – vendia”, já dizia o ditado. Talvez este seja um desses raros – e gratuitos – bons conselhos. Ou talvez não, não sei. De qualquer forma, utilize-o com moderação – o Paciência Negativa não se responsabiliza por eventuais danos que o mau uso de conselhos possa causar. Mas se a empreitada comercial der resultado em capital bruto, eu quero participação nos lucros.