sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Coitadinhos

O sujeito no farol se aproxima da sua janela, que nem deveria estar aberta – mas está por alguma razão desconhecida – e aperta o “play” no discurso ensaiado: “Boa tarde, senhor, eu podia tá matando, eu podia tá robando, mas tô aqui pedindo uma ajuda, não como há vários dias, meu filho tá doente, minha mulher me bate, meu time tá na segunda divisão, meu cachorro foi embora...” etc, etc, etc. Quem sente pena de exemplares como esse ainda não se deu conta desta mutação genética, fruto de seleção natural às avessas, que se abateu sobre a espécie humana sei-lá-quando: Você acaba de se deparar com um Coitadinho.

Outrora raros, os coitadinhos parecem estar se proliferando de forma espantosa no reino animal. Seu peculiar apetite pela auto-piedade, antes reprimido a todo custo pelo bom senso geral e pelo amor próprio, tem se tornado abundante na natureza mediante a iniciativas filantrópicas aos moldes de “Criança Esperança” e programas sensacionalistas como o da Sônia Abraão – aquela criatura de ainda outra espécie que ocupa o topo da cadeia alimentar arquitetada sobre as desgraceiras cotidianas. Assim, se em outros tempos a condição de “coitadinho” era tida como ofensa grave, hoje é motivo de orgulho e até objetivo de vida para alguns menos invejados pobres clássicos. Afinal, o pobre clássico não tem nada além de contas a pagar – enquanto o Coitadinho se esbalda em compadecimento alheio e comoção social por sua triste localização geográfica: O fundo do poço.

Existem diversos subgêneros de Coitadinhos, sendo alguns dos mais tradicionais: O Coitadinho Financeiro, destituído de orçamento suficiente para sustentar um estilo de vida minimamente aceitável [que para ele, inclui antena parabólica no barraco, carro novo na garagem e viagens periódicas ao litoral farofeiro]; o Coitadinho Emocional, destituído da tampa de sua panela, o Yin para o seu Yang [mas que prefere choramingar por sua solidão excruciante ao invés de procurar se fazer interessante para possíveis pretendentes]; o Coitadinho Mal-Compreendido, destituído de sorte na vida e reconhecimento por seus talentos tão evidentes [estes não conseguem compreender, por exemplo, porque cargas d’água ninguém os contrata como comediante de stand-up ou apresentador de show de auditório]. E todos se alimentam das mesmas coisas – olhares complacentes, lágrimas compadecidas e aquele balançar de cabeça que todos nós proferimos quando nos deparamos com uma situação tão injusta quanto a caça injustificada aos pandas chineses. Dessa forma, o sentimentalismo coletivo que se abateu sobre a sociedade neste século faz do mundo moderno o habitat perfeito para estes bichinhos tão infelizes e mal-amados. Resta saber qual será o próximo evento de destruição em massa que há de nos salvar deles.

Costumo ser defensor ferrenho do direito à existência de qualquer espécie que venha a ter sucesso evolutivo – mesmo os pernilongos, cuja função real na natureza ainda me é uma incógnita – mas não consigo deixar de temer pelo futuro do planeta, caso os Coitadinhos se estabeleçam como espécie predominante. Dessa forma, resisto ainda à doce tentação de reclamar minha cota de piedade alheia – resisto, portanto, ao martírio recompensador de me tornar um Coitadinho. Passo os dias a moderar choramingos, reservar lágrimas, evitar a pena – mesmo quando estas se fazem facilitadores químicos para suportar a dura realidade que todos enfrentamos diariamente lá fora. Da mesma forma, não dou esmolas, não poupo choques de realidade quando se fazem necessários, não cedo ombro a quem não se ajuda. E penso que, agindo assim, estarei contribuindo para a extinção dessa especiezinha sem-vergonha de parasitas emocionais. Porque dos pernilongos, meu inseticida já dá conta.

[Pauta inspirada por @rafapedro – se não gostarem (Coitadinho ou não), choraminguem com ela]

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

As flores de inverno

Era uma vez um conto que não sabia como ser começado. Seu autor, imerso que estava em tristeza e desilusão plenas, havia abandonado a criatividade, a vontade de escrever, a esperança. Havia, assim, abandonado a pena. O conto, que não tinha nada com isso, não se fez de rogado: Teimoso como o próprio autor, instalou-se no fundo de sua alma esperou. Esperou quieto, quase imperceptível – como uma idéia que morreria ali, inerte, sem nunca ser consolidada. Esperou pelo menor descuido do autor e um dia, à luz da primeira oportunidade, escapou. Escapou e escreveu, arriscando o desperdício vão de seus derradeiros suspiros de conto, o que seria o mais óbvio dos princípios, quase um clichê descartável. Escreveu apenas isso: “Era uma vez”.

O autor assustou-se com aquela manifestação súbita de sua mão dormente, que quase como que por conta própria, escrevia aquelas palavras insossas: “Era uma vez”. Observou o papel manchado de nanquim – seu papel, seu nanquim, mas não suas palavras – e decidiu continuar, apenas por brincadeira. Afinal, ele não tinha nada mais a perder, e na pior das hipóteses, a empreitada acabaria como tantas outras de suas frustrações recentes – na lixeira, transformada em uma bolinha de papel amassado. E o autor tentou, e como tentou – mas não conseguiu esboçar nem uma palavra sequer além daquelas que jaziam ali, como que clamando por continuidade. E foi então que, prestes a desistir do conto, o autor olhou pela janela. Olhou pela janela e viu seu jardim.

Aliás, jardim vírgula – aquilo já não era mais um jardim havia muito tempo. Era um pedaço ínfimo de terra árida, onde não crescia mais nada desde a Grande Tempestade. Nada mais brotaria ali – nem mesmo a mais resistente das plantas. Nada, imaginava o autor, a não ser aquelas quatro flores de que ele nunca havia se dado conta. “Mas eu não plantei isso”, pensava incrédulo, “eu nem mesmo reguei nada disso, como pode?”. Mas elas estavam ali, imponentes, lindas, firmes. Muito mais firmes do que ele, pensava, e de uma beleza que encantaria mesmo aqueles que não tem amor às flores. E o autor, quieto, apenas observou.

A primeira flor que saltou aos seus desconfiados olhos foi a Margarida – linda em seu contraste entre o branco e o amarelo, dona de si e livre, clássica e elegante por excelência. Bálsamo de Myddvai, herança da Dama do Lago de Llyn-y-Van-Vach para a humanidade e capaz de restaurar nos moribundos a esperança de viver, aquela flor tão majestosamente delicada. “Bem-me-quer, mal-me-quer” – o autor se lembrava do descaso com que alguns apaixonados despetalavam as margaridas, sempre sob o pretexto de provar seu amor verdadeiro um ao outro. E por isso, sentiu compaixão – uma compaixão identificada, pois ele próprio se sentia despetalado por razões tão inverossimilmente nobres quanto aquela. “Bálsamo”, pensou ele, que já se sentia menos ferido apenas por ter vislumbrado aquela presença angelical através da janela. Aquela margarida era bálsamo.

Enquanto admirava a graça elegante da margarida, notou uma sedutora Violeta – que com suas cores fortes e contrastes marcantes, parecia não se importar com os olhares pudicos dos amantes das flores mais clássicas. “Sou roxa, sou provocante, e daí?”, estava estampado ali, naquela violeta cheia de vida – uma vida que o autor sequer se lembrava que existia no mundo. E ao notar aquela flor atrevida no canteiro, compreendeu de imediato porque Zeus a havia escolhido como honraria para a última morada de sua amante proibida Io, a humana que havia roubado seu coração. “Audácia”, pensou o tímido autor. Aquela violeta era audácia.

E o rapaz não teria talvez tirado os olhos da Margarida e da Violeta, não fosse a presença daquela Rosa – linda em sua exuberância provocativa, como se soubesse de sua ligação com Clóris, a ninfa das flores e última amante de Zéfiro, o vento-oeste. As rosas, sabia o autor, eram presenteadas pelos amantes como símbolos da paixão às amadas desde que o mundo era mundo. Não há dama viva, diz a lenda, que resista ao amante acompanhado de um ramalhete de rosas. E mesmo sabendo que as rosas traziam espinhos, entendia que eram espinhos de amor. Porque o amor dói, fere, e também tem espinhos. “Poesia”, pensou o autor. Aquela rosa não era senão poesia.

A última flor que se erguia sobre a aridez do jardim através daquela janela era um Lírio. Branco, puro, modesto – a singeleza que emanava daquele belo lírio só podia ser uma das definições de felicidade, imaginava o autor. Fruto do amor maternal de Juno por Hércules, que abandonado para morrer no campo por sua própria progenitora, encontrara no leite da Deusa-Mãe forças para continuar vivendo. Forças e lírios – conseqüências do leite e da fertilidade de Juno. E aquele Lírio em particular fazia, parecia ao autor, jus à crença de que aquelas flores são capazes de reconciliar até mesmo os mais feridos dos amantes – era um Lírio como nenhum outro. “Lealdade”, imaginou em seu íntimo. Aquele lírio só poderia ser lealdade.

E o autor passou horas a admirar o seu jardim – sim! Aquele pedacinho de terra morta era um jardim, enfim! – que perseverava mesmo sem cuidados ou chances de existir. E admirou a persistência daquelas quatro integrantes tão viçosas, que haviam teimado em crescer ali mesmo sem que ele as tivesse plantado. E pensou que, se mesmo em condições tão adversas aqueles delicados seres conseguiam se fazer assim tão belos, ele também conseguiria, precisava ser capaz. Ele devia isso às flores, as companheiras que o assistiam do outro lado janela. E então ele se lembrou do conto, aquele conto que havia estado à sua frente, intocado, durante todo o episódio das flores. Voltou os olhos para a folha de papel vazia, a não ser por aquelas três solitárias palavras: “Era uma vez”. E se pôs a escrever.

E escreveu, escreveu como se nada mais importasse. Escreveu aquele que talvez fosse seu texto mais longo, mais difícil, mais cansativo. Escreveu e, quando já se aproximava do final, quando já estava exausto e sem idéias, quando achava que não conseguiria concluir o que havia começado, olhou mais uma vez pela janela. E foi somente então que o autor percebeu uma quinta flor ali – machucada, quase morta, mas ainda lutando por existir naquele jardim. Era um broto de Amor-Perfeito, talvez a mais perseverante das flores que ali estavam.

Ah, sim!”, o autor agora se lembrava. Aquilo não era um broto de Amor-Perfeito, eram os resquícios de uma frondosa flor que ele já conhecia. Aquela flor não havia brotado após a Tempestade, não. Ela não era como as outras. Ela havia estado ali sempre, havia resistido à Tempestade, a pior das tempestades. Um broto triste, agora sem flores, mas antes de tudo vivo. E resistia, inexplicavelmente resistia. “Volte pra mim”, pensou o autor. Aquela flor representava o “Volte pra mim”, um pedido desesperado de um amante que havia perdido a razão, e por isso perdido a razão de sua existência. E o Amor-Perfeito sempre havia sido a flor predileta do autor que, ao vê-la ali do outro lado da janela – sofrendo, ferida, mas persistindo – chorou. Chorou pelos ferimentos da flor – queria curá-los todos, todos! – mas sorriu por ela ainda se fazer presente. E soube então o que Homero pretendia quando dizia que estas lindas, as mais lindas das flores, costumavam ser buscadas antigamente para a superação da ira: O filósofo provavelmente já havia notado que elas resistiam às tempestades. “As mais cruéis das tempestades”, pensou o autor, e a mais linda das flores. E ela resistia, apenas resistia, recusando-se a deixar o mundo antes da hora – como aquele conto.

E foi só então que o autor percebeu o que era assim, tão óbvio desde o princípio. Aquela folha de papel era somente isso: Uma folha de papel manchada de nanquim. O conto, aquele conto que havia se recusado a desaparecer antes de existir, já estava escrito mesmo antes daquele “Era uma vez”. O conto se fazia presente ali, do outro lado da janela. Eram as flores, “o conto eram as flores!”, pensou o autor – aquelas cinco flores. E percebeu que pouco importava o que estivesse escrito sobre aquelas linhas, pouco importava como terminaria a história, pouco importava se o resultado seria aclamado pela crítica ou se seria uma de suas piores obras literárias. E em especial, pouco importava o que ele escreveria no final. E assim, o autor redigiu ali as palavras que havia escolhido para concluir – não com uma lição de vida, nem com uma reviravolta impressionante. Terminou como sabia que deveria terminar – tinha tanta certeza! – e como tantas histórias já haviam se encerrado antes. Terminou com palavras óbvias, tão óbvias como as que haviam brotado no papel contra a sua vontade quando ainda nem eram suas. Terminou da melhor forma que pôde, e enquanto escrevia aquelas derradeiras passagens, experimentou uma segurança que até então nunca havia experimentado ao concluir nenhuma de suas obras. E assim, o autor suspirou profundamente, um suspiro como nenhum outro, e escreveu ali, na última linha do papel: “E viveram felizes para sempre”.

[27/08/2010]

[Não -- o Paciência Negativa não se tornou um blog de textos meigos. Este primeiro (talvez último) conto não reflete as crônicas sarcásticas de sempre, e não obstante foi o texto escolhido para o retorno do blog. Por que? Porque eu quis. Semana que vem voltamos com a programação normal de textos resmungões.]


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Responsabilidade

Ando quieto. E um sujeito quieto, vocês sabem, não fala. Não fala e não escreve. Não fala, não escreve e não posta em blog. Pelo menos por um tempo, pelo menos sobre os assuntos de sempre. Na verdade, acho difícil rir das desgraças do mundo, ironizar as mazelas da sociedade “muderna”, quando vejo gente brincando com coisa séria e fugindo à responsabilidade dos próprios atos. Quando vejo gente se dando bem às custas dos outros, a crueldade travestida de pureza e a desonestidade disfarçada por citações fora de contexto. Responsabilidades. Hoje, vamos falar sobre responsabilidades.

Uma das minhas maiores ressalvas sobre a raça humana é o fato inquestionável de que todos, inquestionavelmente todos os seus membros erram. Falha de projeto do nosso Criador que, no alto de sua benevolência, divindade e amor tão plenos, deve ter obtido o diploma de engenheiro em algum curso por correspondência desses bem vagabundos. Por outro lado, se fomos feitos sua imagem e semelhança, talvez esteja aí o problema: Somos tão imperfeitos quanto nosso próprio criador.

Mas como todo bom péssimo engenheiro, o Criador é exímio praticante de gambiarras. Nessa área de atuação, quem não sabe fazer direito sabe consertar – pode não ser limpo, pode não ser bonito. Mas funciona. E se funciona, está resolvido. E a maior das gambiarras já inventadas, a primeira, é o senso de responsabilidade – aquele bichinho que fica buzinando em nosso ouvido cada vez que fazemos alguma coisa errada, mesmo antes de nos darmos conta disso. E coisas certas também – pois tudo o que realizamos, certo ou errado, traz conseqüências. E responsabilidade é reconhecer, assumir e lidar com as conseqüências dos nossos atos. E aí é que está o problema: Todos erramos, mas nem todos assumimos a responsabilidade sobre estes erros. Eu sei, eu sei – “aqui se faz, aqui se paga”, diz o otimista – mas é que às vezes eu sinto que Deus não só é péssimo engenheiro e exímio gambiarrista, como também um burocrata de primeira. Às vezes, eu acho que essa tal justiça divina demora demais, perdida em meio à papelada na escrivaninha de algum anjo concursado que passa a eternidade esperando o relógio declarar fim de expediente.

Então o que é que eu estou dizendo? Pode errar, pode se enganar? Pode. Mas só se você assumir o erro aprender com ele. Oras, quem sou eu para negar perdão a quem pede? Eu erro. Mas erro e assumo. Erro, assumo e aprendo – e peço perdão na esperança de fazer melhor da próxima vez. E acredito que com isso, me separo dos outros bichos. Acredito que é isso que me separa dos monstros.

O maior problema da responsabilidade, a meu ver, é quando ela se faz necessária nas mãos de uma criança. Pior, daquelas crianças mimadas, que se acham as donas do mundo, que se acham adultas. Crianças não são responsáveis, e para isso existem pais. E é quando um adulto age inconsequentemente, feito uma criança mimada, que os maiores estragos são sofridos – porque não existe um pai ali para lhe dedicar as merecidas palmadas e ensinar que aquilo, o que quer que seja, não se faz. E muitas vezes, muitas vezes mesmo, o que alguém faz é algo que não se faz. Aliás, aproveito para rever uma tese: Deus é péssimo engenheiro e péssimo gambiarrista. Porque se os seres humanos se apresentassem ao mundo equipados de uma bomba interna, detonada à menor tentativa de se fazer o que não se faz, aí sim. Isso sim seria uma gambiarra digna de uma divindade que se diz responsável pela criação do mundo.

Mas não há bombas. Não há justiça divina rápida, nem culpa suficientes que chamem à responsabilidade alguém que, seja por pura imaturidade, seja por completo descaso com a vida alheia, não acha que ela lhe pertence. Se a salvação é oferecida aos que buscam o perdão, há aqueles que acreditam piamente que sequer precisam dele. E deles, destes tantos monstros que temos por aí, eu tenho pena. Pena e nojo. Nojo e vergonha. Sim, é isso: Tenho vergonha de quem não admite precisar de perdão. Vergonha de quem não admite que é capaz de errar.

Texto besta, né? Sem graça, superficial. É, eu também achei, mas agora já escrevi. E sei que quem não se responsabiliza, não lê textos como esse. Então escrevi um texto besta e superficial, e foi à toa. Mas pelo menos eu aprendi alguma coisa com ele.

[O Paciência Negativa está entrando de férias. Em breve o autor retornará com publicações semanais inéditas, falando mal de Deus e o mundo e se auto-referenciando na terceira pessoa. Sejam pacientes e obrigado pelo carinho.]

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Saúde é o que interessa

Uma gordinha sentada imponentemente em seu trono de entrevistada, respondendo às mais diversas indagações de seu ilustre inquisitor sobre o que é que devemos consumir e o que é que devemos evitar a todo custo em nome de uma existência mais próspera e saudável. Se a imagem não lhe parece familiar, meus parabéns: Você provavelmente não tem passado muito tempo na frente da televisão. Caso contrário, já teria entrado em contato com a evangelização de um, dois ou mil nutricionistas – que parecem estar sistematicamente saindo de suas alcovas para dominarem o horário nobre (quiçá o mundo).

Confesso que sempre me faz bem ver uma nutricionista papagaiando dicas para uma vida mais saudável em algum programa de quinta categoria. Em primeiro lugar, a visão dantesca de uma quase sempre obesa, envelhecida e mal cuidada senhora me reconforta um bocado. Porque das duas uma: Ou ela realmente cumpre à risca todo aquele ritual diário de exercícios, preocupações e consumo de matinhos que propõe – o que só aumenta minha convicção na minha dieta balanceada de carne vermelha, sanduíche (iche!) e bacon – ou é uma hipócrita irreversível, que prega uma coisa ali, mas abastece a geladeira com as mais proibitivas delícias que a indústria alimentícia foi capaz de produzir. E nesse último caso, me tranqüiliza saber que ela está na mais absoluta mesma situação que eu – salvo pela culpa e auto-flagelação que provavelmente acompanham o descumprimento de seus próprios dogmas, e que não me afligem nem um pouco.

Mas apesar dos pesares, me preocupo muito com a minha própria saúde – motivo pelo qual cometo todos os abusos condenados pelas pastoras do way of life natureba. Explico: Como errado, prefiro um copo de Coca-Cola a um de água, pulo refeições na correria do dia a dia, sou sedentário por natureza e mais uma dezena de etecéteras que nem convém relatar aqui. Mas faço tudo isso com a certeza de que, no dia em que Dna. Morte sair das histórias do Penadinho para comunicar meu aviso prévio, poderei tentar suborná-la [funciona com a maioria dos demais funcionários públicos, e aqui não tem porque ser diferente]. Terei a possibilidade de abandonar uma série de hábitos desagradáveis para tentar evitar o inevitável. No entanto, se eu me alimentasse adequadamente, fizesse exercícios diariamente e evitasse álcool a qualquer custo, que moeda de troca teria para barganhar com a Ceifadora? Pois é.

No auge dos meus quase trinta anos de vida, nunca sofri nenhum infarto fulminante ou algo que o valha [não, caro devorador de aveia, isso aqui não é um tratado do além-túmulo, tampouco o testamento deixado em meu leito de morte para alertar outros sobre as conseqüências de uma vida repleta de abusos – sinto decepcioná-los]. Mas aí é que está o segredo: Um dia isso vai mudar. E quando minha saúde escorrer por entre meus dedos engordurados de óleo de pastel de feira, eu já tenho um plano perfeitamente bem traçado para melhorar minha qualidade de vida – ao contrário de qualquer comedor de alface que eu conheça. Demagogia hedonista? Talvez. Mas do alto do meu hedonismo, venho buscando aproveitar muito bem essa que pode ser minha única oportunidade de experimentar os prazeres “proibidos” que a vida traz. E até agora, tenho sido muito bem sucedido e sem experimentar conseqüências assim tão graves.

Um dia, serei obrigado por uma corja de cardiologistas enfurecidos a abandonar de vez o bacon. Mas o tempo passa para todos, e isso nutricionista nenhum diz na TV. Um dia, invariavelmente, todos estaremos velhos, cansados, à beira de uma falência de órgãos – não importa se você fumou a vida inteira ou gastou metade da sua renda vitalícia em rúcula, linhaça e academia. A grande diferença entre eu e um cidadão que conta calorias está aí: Hoje, entupo minhas veias de gordura, enquanto ele se entope de cereais e carne de soja. Amanhã, sairei com minha bengalinha para caminhadas matinais no parque e precisarei me preocupar com o colesterol – enquanto ele e sua bengalinha provavelmente serão capazes de caminhar um ou dois quilômetros a mais que eu, e continuará com sua dieta de cereais e carne de soja. Eu sei, eu sei – você está pensando que eu me arrisco a nem sequer chegar a tal idade, e que estou susceptível a um sem número de mazelas hediondas por não me cuidar agora. Respondo apenas que você, no alto de sua forma física, está susceptível a ser atropelado por um caminhão ou ser esfaqueado por um bandidinho por causa do seu relógio – e no entanto, eu não tento convence-lo a passar o restante dos seus dias enclausurado num quarto acolchoado.

Viver dá trabalho, e viver “direito” dá mais trabalho ainda. E o prêmio para o esforço extra não é senão alguns anos a mais sob os cuidados de alguma enfermeira boazuda, que eu nem mesmo teria, nos meus últimos anos de vida, condições físicas de cortejar. Embora eu concorde que talvez me restem menos primaveras do que aos ditos saudáveis, ressalto que estas seriam primaveras derradeiras – daquelas que, perdoem a crueldade, não me farão falta alguma. Pouco me importa se viverei até os noventa anos ou até os oitenta e cinco – prefiro, na verdade, marcar minha passagem para sei-lá-onde enquanto ainda for capaz de ir ao banheiro sozinho. E se o bacon pagar o valor do pedágio, e o álcool garantir o seguro das bagagens, já me dou por satisfeito.

[Caro auto-proclamado membro da “geração saúde”: Antes de sair berrando aos quatro ventos que eu sou um analfabeto irresponsável, lembre-se que os textos deste blog têm cunho humorístico – e mesmo que não tivessem, eu declararia aqui a mesmíssima coisa em uma tentativa de evitar eventuais encheções de saco. Mas se estas vierem, favor utilizar o botãozinho “Comentários” abaixo. Att, O Autor.]


sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Um minutinho

Ei leitor, você tem um minutinho para ler este texto?

Pobre de você se respondeu que “sim”. Os próximos minutos da sua vida, ou talvez horas, serão gastos aqui, comigo, em uma atividade que provavelmente se revelará muito menos produtiva que todas as demais que você tem planejadas para hoje. Se eu me empolguei e escrevi demais, seu cronograma diário será decerto atrasado por minha culpa. Minha culpa? Sua culpa, na verdade, que caiu em um dos mais antigos contos do vigário da história.

Gente que pede “um minutinho da sua atenção”, em geral, não dá a mínima para o seu tempo. O desavisado que cede míseros sessenta segundos acaba perdendo muito mais tempo e dignidade do que pretendia quando tentou apenas ser simpático. E este cruel artifício, que pode até mesmo ser considerado uma forma de tortura psicológica, só é utilizado pelos malas de carteirinha: Testemunhas de Jeová [“Bom dia... A senhora teria um minutinho para a palavra do Senhor?”]; atendentes de telemarketing [“O proprietário da linha teria um minutinho para eu estar lhe passando uma promoção exclusiva?”]; pedintes [“Tem um minutinho, irmão? Eu podia tá matando, eu podia tá roubando...”]; eco-chatos [“Ei, você quer ajudar a salvar os pandas voadores da Namíbia da extinção? É só um minutinho...”]. E todos parecem ser devotos de Xerezade, personagem dos contos das Mil e uma Noites que escapou da morte graças à sua inigualável capacidade de emendar uma história na outra, para sempre, sem nunca concluir o discurso.

Acredito que o “um minutinho” não é senão uma variação menos pornográfica do “só a cabecinha”: Tentam te distrair com o diminutivo para baixar a sua guarda e, se você dá abertura, quando percebe já te enfiaram muito mais que o prometido. E você continua ali, suportando a dor da perda, pensando em como foi que se meteu naquela situação desagradável – e mais importante, pensando na forma mais rápida e menos insensível de se livrar do ser grudento. Ser este que – sinto informar – é provavelmente muito mais proficiente na arte de embromar do que você é na arte de escapar da embromação.

Assim, deixo aqui um conselho – a melhor saída para evitar aborrecimentos talvez seja justamente a mais óbvia: Não ceda nunca, em hipótese alguma, nem que sua vida dependa disso, minutinho algum a ninguém. Ninguém – nem mesmo àquele padre gente boa, ou àquele padeiro legalzinho que fica puxando papo com os clientes no balcão. Dê apenas o seu melhor sorriso, diga que está atrasado e continue com seus afazeres – é melhor prevenir, do que remediar. Mas se você não se agüenta de tanta benevolência, se não consegue ser antipático nem com um membro da Al-Qaeda, não se preocupe: A humanidade também pode fazer uso de sua paciência infinita. Na pior das hipóteses, você pode tomar para si a tarefa de distrair esses sujeitinhos e evitar que eles azucrinem gente como eu – gente que prefere a morte lenta e dolorosa à perdição de ser envolvido em um bate-papo cotidiano com alguém que eu não conheço, sobre um assunto que não me interessa. Sim, você pode fazer as vezes de “boi de piranha” – e nós, os impacientes de plantão, lhe seremos eternamente gratos por seu sacrifício.

Só não me olhe com arrependimento e nem venha me pedir socorro depois. Eu avisei.

[Este texto foi inspirado em uma conversa por MSN com @ursulafar, enquanto esta sassaricava para se livrar de alguém a quem havia cedido ”um minutinho do seu tempo“ – a tonta.]


sexta-feira, 30 de julho de 2010

Lugar nenhum

Quando eu nasci, fui recebido com muita alegria por toda a família -- mamãe, papai, vovôs, titios etc. Vi a luz pela primeira vez em um hospital bem preparado, tocado por médicos capazes e forrado por paredes branquinhas. Tudo muito bem financiado pelo contribuinte -- fosse em forma de impostos, fosse através do plano de saúde privado que papai pagava todo mês em dia. Mas falhei em notar a presença de algum representante do então presidente Figueiredo, que na ocasião deveria estar mais ocupado com os últimos suspiros do Regime Militar.

Cresci como cidadão exemplar. Na escolinha, sexta-feira era dia de hastear a bandeira e cantar o hino nacional [motivo pelo qual estou entre a menor parcela da população tupiniquim que conhece todas as partes o hino, de trás para frente, até hoje] e tinha ganas de dedicar minha vida à defesa da pátria. Aliás, cheguei a alcançar o posto de oficial da Marinha brasileira, tornando-me aluno da Escola Naval no Rio de Janeiro. E foi aí que os problemas começaram.

Numa tarde ensolarada, estava eu fardadinho, ao lado de meus colegas aspirantes a tenente da Marinha, bradando o “Virumdum Piranga” a plenos pulmões. Era hábito, fazíamos isso todos os dias ao entardecer, após uma rotina incessante de preparação para a luta em um genuíno esforço patriótico. E foi nesse dia que olhei de rabo de olho para a minha direita, e notei lágrimas de emoção escorrendo pela face do aluno Bravo Catorze.

Lágrimas.

Naquele momento, tive uma epifania: Eu jamais conseguiria encarar a pátria como prioridade máxima, jamais aceitaria abandonar entes queridos para me aventurar em algum território estranho, combatendo inimigos invisíveis que – com ou sem razão – algum político declarou serem ameaçadores demoníacos da soberania nacional. Eu não amava a pátria mais do que a minha família que – essa sim – havia sempre me apoiado independentemente de credo, cor ou situação social. Céus, eu havia sido avaliado em todos os aspectos, e virado no avesso pelos médicos da Marinha Brasileira, só para receber a “honra” de morrer pelo país, caso isso se fizesse necessário. E muitos companheiros haviam sido descartados sem piedade pelas Armas, alguns míopes, outros intelectualmente inaptos, mas todos frustrados de seus sonhos segundo os critério de aço da Pátria Amada. Mas não eu, eu havia sido abençoado pela “perfeição” militar. A não ser pelo triste fato de que encarava tudo aquilo como um trabalho qualquer, regido por obrigações e direitos – diferente de Bravo Catorze e tantos outros colegas, que se derretiam por toda aquela ideologia que não era a minha.

Abandonei a vida militar, mesmo sob protesto de meus superiores. Eu buscava apenas um emprego, e não a absorção como mártir pelo Florão da América. E se por um lado creio que um emprego, uma carreira, deva sim ser motivada por paixão pelo que se faz, acredito também que isso não deva ocorrer sem retorno satisfatório para todos os envolvidos. Explico: Trabalhamos pelo salário no final do mês, pura e simplesmente, ou ainda por amor à atividade exercida. Dizer que trabalhamos feito escravos para melhorar a pátria, sem esperar nada em troca, é a mais pura demagogia – demagogia essa que parece estar na moda. É claro que esperamos retorno. É claro que desejamos receber nosso dinheirinho, necessário para a sobrevivência e para fazer um agrado a nossos entes queridos e a nós mesmos de vez em quando. É claro que pagamos nossos impostos – não para alimentar o crescimento nacional apenas, mas sim esperando que essa contribuição se reflita em saúde, educação e condições adequadas de trabalho para nós mesmos e outros. Ao meu ver, a relação cidadão/Estado é apenas mais uma parceria comercial, dessas tantas: Eu entro com meu dinheiro e minha mão-de-obra, especializada ou não, e os imponentes “donos do país” revertem estes esforços em infra-estrutura para que eu continue produzindo. Todo mundo fica feliz, e a sociedade cresce.

Não compreendo o Patriotismo em nenhuma de suas facetas – seja a emoção de ver a vitória da seleção brasileira na Copa, seja seu primo fanático e quase religioso, o ufanismo. E não limito esta opinião ao contexto tupiniquim: Não compreendo que o amor à pátria justifique richas entre nações, guerras, defesas de fronteiras imaginárias que um dia foram desenhadas em um pedaço de papel por outros patriotas. Considero-me um cidadão do Mundo, e não consigo ter mais consideração por um irmão brasileiro do que por um irmão argentino, somaliano ou japonês. Para mim, o fato de eu não poder viajar até a Eslováquia sem burocracia equivale a eu não poder ir até a pracinha da esquina e sentar sob uma árvore – direito que deveria ser assegurado não só aos brasileiros, como também a todo e qualquer rebento da Natureza. Sei perfeitamente que isso seria impossível por uma série de fatores práticos, mas não consigo deixar de crer que praias, florestas, cidades – tudo deveria ser visto como patrimônio da Humanidade, e como tal, passível de ser desfrutado igualmente por todos os seus integrantes.

Assim, declaro que não amo meu país – pelo menos não mais do que amo qualquer outro país – mesmo que este tenha cumprido até agora, de forma quase medíocre, o nosso acordo de benefício mútuo. Eu também cumpri, e não espero que meu país me ame em retorno. Espero apenas que o acordo se mantenha, enquanto for útil para ambas as partes. E dessa forma, espero poder continuar tendo recursos para amar quem acho digno de ser amado – família, amigos, o Mundo – já que não vejo propósito em amar um pedaço de pano colorido, um hino (por mais belo que seja) ou linhas traçadas sobre um mapa. E mesmo que você prefira exercer seu direito civil de discordar de mim, peço apenas que embase seus argumentos em algo além de “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”: O passarinho não tem CPF, não gorjeia em português e nem evita o espaço aéreo internacional quando alça vôo.

[Música sugerida: Lugar Nenhum, dos Titãs]


sexta-feira, 23 de julho de 2010

Protocolo

Outro dia cometi o grave erro de desejar continuar apto a dirigir: Fui renovar minha Carteira Nacional de Habilitação. Cidadão precavido que sou, entrei na internet, me informei sobre os documentos que precisaria para a empreitada e – de posse de todos eles – me dirigi a um Poupa-Tempo, órgão governamental batizado segundo sua função prioritária: Poupar o tempo de vida de seus funcionários, que passam em média três quartos de sua carga horária diária fazendo absolutamente nada de útil – com o objetivo óbvio de evitar a morte prematura por estresse. O que, você achava que a idéia era poupar o seu tempo? Então continue lendo.

Burocrata seria um bicho engraçado, se não fosse trágico ou, mesmo sendo trágico, se não fosse responsável pela nossa tragédia. Um sujeito que passa a vida se especializando em complicar o incomplicável, em fazer-nos sentir pena de nós mesmos, só pode resultar de algum tipo de sarcasmo divino – não consigo pensar em outra razão para a existência desses tipinhos detestáveis. E descobri, naquela fatídica terça-feira, que um bom burocrata nada mais é do que um sádico de boutique, um inquisitor da idade média repaginado. E como tal, conhece as mais avançadas técnicas de tortura psicológica e se mostra capaz de nos fazer experimentar como ninguém todas as cinco fases do sofrimento, com uma eficiência sem igual – eficiência essa que termina aí, nesta classe profissional. E digo isso com conhecimento de causa: O diálogo reproduzido livremente abaixo foi protagonizado por este “paciente” autor e por um “competente” funcionário do Detran, responsável pelo guichê catorze do Poupa-Tempo aqui da cidade.

Burocrata 1: – Senhor Fabio, está faltando o comprovante de residência na cidade em que a CNH original foi emitida.

Eu: – Mas eu não moro mais lá há oito anos...

Burocrata 1: – Não importa. O senhor tem algum amigo/parente/vizinho/inimigo/conhecido/traficante de confiança que ainda reside na cidade?

Eu: – Tenho, mas...

Burocrata 1: – Serve.

1ª Fase: Negação

Eu: – Não é possível, você só pode estar brincando. Você quer que eu comprove residência em uma cidade na qual eu não moro, com um documento que não é meu, de um imóvel que eu nem sei onde fica?

Burocrata 1: – Isso mesmo, senhor. É protocolo.

Eu: – Mas isso não faz o menor sentido!

Burocrata 1: – Sinto muito, senhor. É protocolo.

2ª Fase: Raiva

Eu: – Olha, você está de sacanagem comigo, só pode.

Burocrata 1: – Não senhor. É o protoc...

Eu: – Escuta aqui, você pega o seu protocolo e faça o que bem entender com ele. Não dou a mínima para o protocolo. A MÍNIMA!

Burocrata 1: – Mas senhor, sem o protocolo isso aqui viraria uma bagunça.

Eu: – VIRARIA UMA BAGUNÇA?? VIRARIA??? VOCÊ PAROU PARA PENSAR NO QUE ESTÁ ME PEDINDO??? COMPROVANTE DE RESIDÊNCIA DE OUTRA PESSOA???

Burocrata 1: – Não vamos perder a compostura, senhor. É só o protocolo.

3º Fase: Barganha

Eu: – [Suspiro]. Deve haver uma outra maneira de resolvermos isso. Não posso trazer o documento em outra ocasião?

Burocrata 1: – Não pode, não senhor. O protocolo não permite.

Eu: – Ai, você de novo com essa de protocolo. Sério, você deve conseguir dar um jeitinho aí. Que tal uma cervejinha por minha conta depois do expediente? Pode dizer, quanto vale pra você esse maldito comprovante?

Burocrata 1: – Senhor, eu não bebo.

[Pensamento: Logo vi.]

4º Fase: Depressão

Eu: – Amigo, pelamordedeus, eu deveria estar trabalhando, agora, meu chefe só me deu hoje para resolver isso aqui. Se eu não conseguir renovar a CNH hoje, corro o risco de não dirigir nunca mais. Tenha dó...

Burocrata 1 [Me olhando complacente]: – Desculpe, senhor Fabio, não posso. O que é certo, é certo, né?

[Pensamento: Certo vai ser o cruzado de direita que eu vou dar na sua cara – quero ver você pronunciar “protocolo” sem os dois dentes da frente.]

5º Fase: Aceitação

Eu [Trêmulo de ódio, discando no celular]: – Alô, mãe? Tudo bem, mãe. Não, mãe. Tô, mãe. Mãe... MÃE! Eu preciso que você me passe um fax de um comprovante de residência aí de casa. Tá, mãe, desculpa ter gritado. Não, mãe, eu não estou irritado.


Voltei alguns dias depois, de posse do maldito comprovante de residência-em-que-eu-não-moro. Obviamente, fui atendido por outro funcionário, que apanhou todos os meus documentos, escolheu um aleatoriamente – a cópia do meu CPF – e o conferiu minuciosamente. Nem olhou para os demais.

Eu: – Ei, você não vai verificar o comprovante de residência?

Burocrata 2: – Ah, não precisa – é só protocolo.

Suspirei. E quando finalmente saí dali, só conseguia pensar que, no caso particular dos burocratas, deveríamos considerar um sexto estágio, a fase final, para o sofrimento:

6ª Fase: Homícidio