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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Nece... o que?

[Texto-resposta a “Necessaire”, postado originalmente por Mercedes Gameiro no Caixa Preta.]


Celular toca. Toca. Toca. Ignoro – o metro e meio que me separam do aparelho não podem ser cobertos pelo meu braço, por mais que eu me esforce em esticá-lo [motivo pelo qual a cerveja se encontra a quarenta centímetros de mim]. “Se fosse importante ligariam em casa”, penso. Telefone de casa toca – saco.

- Alôôô.
- Fabio? Nossa, tá bravo?
- Ah, é você, Ella. Não, não tô bravo. Telefone tava longe, desculpa a demora.
- Ah...
- ...
- ...
- Que houve, Ella? Você só me liga quando precisa de opinião masculina sobre algum cara que está te confundindo. Vai, desembucha.
- Ai, seu grosso, não é verdade. Ligo pra saber de você, porque você é meu amigo e...
- Ella.
- É por causa da necessaire. Tá no armário de novo, mas eu não quero que esteja. Quero colocá-la de volta na minha bolsa.
- Nece.. o que?
- Ai, Fabio, necessaire, necessaire! Aquela bolsinha com base, demaquilante, etc. Kit de primeiro socorros que toda mulher traz na bolsa.
- Ah, a bolsa que vocês guardam na bolsa. Você não tá achando sua necessaire, é isso?
- Não! Ela tá no armário. Esse é o problema.
- Ah, entendi. Vá até o quarto, abra o armário, pegue a necessaire e coloque-a na bolsa de volta. Voilá – problema resolvido. Beijo.
- Vocês homens não entendem nada, mesmo! Tá vendo, é por isso que a necessaire tá no armário.
- Ella... elabore, por favor. Você tá parecendo a doida da Mercedes, não diz coisa com coisa. Ainda não entendi qual é o problema.
- Vocês homens são muito limitados. Acho que vou ligar pra Mercedes de novo.
- Isso, liga. Beijo.
- Ogro! Desculpa incomodar, tá? Você vai ver só quando precisar de conselhos sobre como ser romântico de novo.
- Como eu ia dizendo, prossiga, por favor. [suspiro]
- Então, ele sumiu de vez – lembra, o cara de outro dia?
- Lembro. O cara perfeito, o Yin do seu Yang, a tampa da sua panela. Lembro sim. Que tem ele, terminou com você?
- Não, não terminou. Mas ele não é nada disso aí que você está dizendo, ele é um crápula.
- Mas não sou eu quem disse tudo isso, foi você que ainda outro dia me diss...
- Não fui, ele é um crápula e pronto.
- Mas ele não...
- CRÁPULA!
- Tá. Prossiga.
- Então, ele simplesmente sumiu. Não dá notícias, não me liga, não me manda mais emails, não me chama pra sair.
- Hum.
- É isso, ele me odeia.
- Calma. Você deduziu que ele te odeia porque não tem batido cartão com você. É isso?
- É. Aquele crápula.
- Normal.
- Normal??? Seu crápula!
- CALMA. Ó, vocês mulheres não conseguem pensar com cabeça de homem. Vem cá, esse não era aquele cara enrolado?
- Era, esse mesmo. Mas parece que não tá mais enrolado, tá completamente desenrolado, na verdade. Achei que, por isso, viria correndo atrás de mim.
- Péééé – erro número um.
- Como assim?
- Claro que não viria. Pelo que você está contando, ele tem todos os motivos do mundo para ter dado uma desaparecida. Homem resolve um problema por vez, querida. A versatilidade é coisa do cromossomo X.
- Ai, como vocês são limitados.
- Somos. Não quero te atrapalhar mais com a minha limitação proveniente do cromossomo Y – boa sorte com o problema. Beijo.
- Não, espera!!! Desculpa, vocês não são limitados. Prossiga.
- Hunf.
- Lindo, querido, atencioso, amigo do coração, gost...
- Chega de puxar o saco. Presta atenção.
- Tá.
- Então, ele era enrolado, ok. Isso fazia de você uma aventura. Agora, ele está livre. Isso automaticamente te promove ao posto de “candidata a futura oficial”. E isso muda tudo.
- Ai, que absurdo! Mas ele sabe que eu não espero nada dele além do que a gente tinha antes. Eu quero estar com ele, não quero ser a mãe dos filhos dele.
- Sim, mas você é mulher. Homem, por mais que não assuma, não sabe ficar sozinho. Sempre tem uma namorada/esposa/ficante fixa/amante recorrente/candidata predileta para ocupar o posto de “oficial”. E essa, é tratada de forma diferente das outras.
- Não tô entendendo nada. É por isso que ele me IGNORA?
- Ele não te ignora, não necessariamente. Talvez só esteja medindo as palavras. Te perder, agora, se tornou mais preocupante do que antes.
- Continuo perdida.
- Ai, como vocês são limitadas.
- Grrrr... Tá, um a um.
- Vamos lá, metaforazinha: É um joguinho de campo minado. Antes, você não era a oficial – se ele pisasse numa mina com você, perderia uma vida e continuaria no mesmo ponto do tabuleiro. Agora, você É a oficial, ou a mais próxima disso. Se ele pisar numa mina, é game over – ele volta para o começo do jogo.
- Você tá dizendo que me perder agora seria mais danoso pra ele do que seria antes?
- É exatamente o que eu estou dizendo, Ella.
- E é por isso que ele sumiu? Mas isso me faz querer esquecê-lo, não tem a menor coerência.
- Somos homens. Coerência não se aplica, não sempre. Ele só vai voltar quando terminar de resolver quaisquer problemas que o “desenrolamento” dele possa ter trazido.
- Ai, mas será que ele volta? Você tá me dando esperanças, será que ele ainda me quer, então? Mais do que antes?
- Eu não disse isso.
- Mas...
- Eu disse como é que os homens funcionam. Disse que SE ele ainda gosta de você, é perfeitamente natural que suma nesse momento confuso da vida dele. Mas sempre tem a hipótese de ele ter cansado de você.
- ... ... ...
- Ella?
- Vocês homens deveriam vir com manual de instruções, sabia???
- A gente é fácil de lidar, vocês é que complicam. Pense nos homens como moleques mimados. Se seu filho de oito anos parasse de falar com você, e se fechasse no quarto por dias – porque está entretido com um jogo de videogame muito difícil – o que você faria? Bateria na porta de hora em hora oferencendo carinho e atenção?
- Não, claro que não. Moleque quando se enfia no videogame acha que o mundo vai acabar se ele não se superar naquilo. Não consegue pensar noutra coisa, enquanto não ganha – pode acabar o mundo. Além disso, uma hora ele cansa e volta todo meloso.
- Certo. E o que mais?
- E se ele estivesse me ignorando por birra, minha insistência só faria com que ele me odiasse por não entender que ele quer espaço. E se ele tem algum problema pra resolver, não é com a mãe que ele vai compartilhar, não mesmo. Uma hora ele vai precisar de mim, afinal sou a mãe dele e...
- Exato.
- Exato o que?
- Você acaba de compreender cabeça de homem. É como a cabeça de um moleque de oito anos.
- Mas nós não estamos falando de filhos, estamos falando do...
- Ella... don’t kill the messenger. Reclamações com o fabricante – dirija-se à igreja mais próxima.
- Ai, não é possível que vocês sejam assim tão... tão... infantis! É... entendi... acho... Mas não faz sentido! Como vocês podem enxergar relacionamentos com esse simplismo todo?
- Coisa do cromossomo Y. Era só isso? Tá começando o jogo.
- Era... só... acho...
- Mas eu ainda não entendi uma coisa.
- Você não entendeu??? Imagina eu, então! Tá, fala.
- O que DIABOS a bolsinha tem a ver com isso tudo??
- Ah... deixa pra lá. Coisa de mulher. A Mê entende.
- E depois é a gente que é complicado. Beijo.
- Beijo... brigada, viu? Acho.
- Disponha.
- Viu, tô indo pro bar. Quer ir junt...
- JOGO.
- Tá bom, tá bom. Beijo tchau.
- [Click]

As amigas que eu tenho... não sei o que seria delas sem um intérprete XX – XY. E para isso, eu estou sempre dispon... CARALHO, JUIZ LADRÃO!!